segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Aspirantes a jornalistas da Agência da Boa Notícia Guajuviras começam capacitação



Cerca de 40 alunos estavam sentados a espera das informações sobre a Agência da Boa Notícia Guajuviras quando após ouvirem as palavras das Coordenadoras do projeto Andréa Freitas e Christa Berger tiveram uma surpresa. Com um violão nas mãos e uma didática surpreendente, o professor de rádio do curso de Comunicação Social da Unisinos Joel Guindani, deixou o primeiro contato com os jovens do projeto mais divertido. A música “É preciso saber viver” de Roberto Carlos e recentemente gravada pela banda de Rock Titãs, foi tocada e cantada por Joel. Arrancou palmas ritmadas e sorrisos inibidos de quem acabava de se conhecer. Na dinâmica de integração foi proposto ainda uma apresentação. A cada cinco jovens a citar o nome com um gesto característico da personalidade, o refrão “Seja bem vindo olêlê, seja bem vindo olalá, Paz e bem para você que veio aqui para comunicar” encerrava de forma bem humorada a rodada.
O bate-papo nesta segunda-feira, 30, na sede da subprefeitura nordeste foi além das brincadeiras, foi de perspectiva de mudanças. Transformações não só para a vida de cada integrante que estará participando de um momento de mudanças no bairro, mas também porque vão ajudar a desconstruir o estigma de violência do bairro. Até o dia 14 de dezembro 80 jovens entre 16 e 24 anos serão capacitados nas áreas de produção de conteúdos em Videodocumentário, Internet, WebTV, RádioWeb, Fotografia, Comunicação Cidadã e Práticas e produção jornalística, para atuar como repórteres cidadãos. As oficinas serão ministradas por professores da graduação e da pós-graduação da Unisinos, parceira da prefeitura de Canoas no projeto. Os alunos farão duas oficinas obrigatórias, práticas de comunicação cidadã e práticas de produção jornalísticas, e mais duas conforme a aptidão. “Teremos uma plataforma na web onde o trabalho dos jovens serão postados” explica a coordenadora do projeto pela secretaria de Segurança e Cidadania Andréa Freitas. A coordenadora pedagógica e professora da Unisinos Christa Berger ressaltou que o desafio não será só o de ensinar as técnicas da comunicação, “será também de contar boas histórias. O bom jornalista conta histórias e certamente vocês devem ter muitas histórias para contar, queremos ouvir os sonhos de vocês” instigou. A capacitação terá duração de três meses. A formatura das duas primeiras turmas está prevista para o dia 15 de dezembro, onde os alunos receberão certificados da Unisinos como técnicos.


O Comunicação Cidadã é um dos 12 projetos do Programa de Segurança Pública com Cidadania do Ministério da Justiça que está sendo implantado no bairro Guajuviras/ Território da Paz. Tem como objetivo promover ações de prevenção à violência por meio de oficinas de Comunicação Cidadã e despertar para o direito a informação. Isso será feito através da confecção de boas notícias do bairro. A Agência da boa notícia Guajuviras funcionará em um espaço localizado na avenida Boqueirão, próximo a rótula do Guajuviras e contará com estúdios profissionais de RádioWev, TVWeb e salas de oficinas equipadas com computadores, microfones, câmeras fotográficas e filmadoras.


Taís Dal Ri

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Juventude quer comunicar!


Integrantes do Processocom, Movimento Sem Terra, professores e alunos da Escola Nova Sociedade discutem sobre Juventude e Comunicação.

Na próxima sexta-feira (13), integrantes do Processocom, jovens assentados, professores e militantes do Movimento Sem Terra (MST) debaterão sobre os desafios e possibilidades entre comunicação alternativa e juventude. O encontro será na Escola Estadual de Ensino Médio Nova Sociedade, localizada no assentamento Itapuí, interior do município de Nova Santa Rita, há 21 km de Porto Alegre (RS).

A ideia desse encontro surgiu da Professora Elizabete Witcel, especialmente após perceber que alunos e professores discutiam sobre as possibilidades de criação de um jornal ou de uma rádio na escola: “tem um grupo muito animado e se pudermos fazer um encontro tenho certeza que eles e alguns professores irão levar adiante a ideia de uma rádio ou de jornal na escola, ou até mesmo aqui nos assentamentos”, destaca. Para Elizabete, a comunicação é espaço educativo privilegiado: “todos os alunos querem comunicar, pois eles sempre estão em contato com algum meio de comunicação, como televisão, celular, rádio e isso é bom para uma questão educativa; para que eles possam ser comunicadores de fato”, comenta.

O primeiro encontro, com a temática “A juventude quer comunicar”, será espaço de debate sobre motivações e desafios da construção de mídias alternativas, tendo como ponto de partida a conjuntura midiática local, suas limitações e alternativas possíveis. Também serão discutidas questões relacionadas ao protagonismo juvenil. De acordo com um dos maiores pesquisadores sobre a questão da juventude, Padre Hilário Dick, “as sociedades, em todos os tempos, tiveram e têm dificuldades em admitir a novidade emergindo das manifestações juvenis, na sua grande maioria consideradas menos importantes”, salienta. Padre Hilário ainda pontua que “a juventude não está feita: ela está se fazendo. Carrega em si a dimensão da criatividade e de uma criação que não está pronta. Ela é encarnação da criação acontecendo na humanidade”.

Professora Elizabete comenta que esse é o primeiro passo para a consolidação de um grupo de jovens comunicadores, que futuramente irão facilitar as formas de comunicação e informação não apenas no ambiente escolar, mas com toda a comunidade: “nosso objetivo é começar escutando os jovens sobre suas ideias com relação à comunicação. Logo após, poderemos ir formando um grupo para a prática mesmo, de um jornal ou de uma rádio. No final, certamente teremos um grupo de comunicadores não apenas aqui na escola, mas atuando em toda a comunidade assentada”, finaliza.

Os encontros serão assessorados por Raquel Casiraghi, Bianca Costa e Miguel Stédile, do Setor de Comunicação do MST e também por Joel Felipe Guindani e Ricardo Machado, integrantes do Processocom. Você também poderá contribuir, envie um email para j.educom@gmail.com e informe-se.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

As Políticas radiofônicas do MST no cotidiano da Rádio Terra Livre FM


Resumo: Busca refletir sobre a relação entre demandas do cotidiano dos ouvintes e o funcionamento da Rádio Terra Livre FM na sua relação com as Políticas radiofônicas do Movimento Sem Terra (MST). A Rádio Terra Livre FM, desenvolvida por agricultores assentados, ao mesmo tempo em que pretende fidelidade às políticas radiofônicas, depara-se com as demandas do cotidiano, que para alguns locutores reorietam sua condução política/politizante. Problematiza-se a especificidade da tecnologia radiofônica e as teses de Michel Maffesoli: da primazia do cotidiano sobre a instituição e do presente plural sobre o projeto político e linear.

Palavras-chave: Cotidiano; Rádio Comunitária; Movimento Sem Terra.

Versão completa em:

http://www.intercom.org.br/sis/2010/resumos/R5-2266-1.pdf

terça-feira, 27 de julho de 2010

Eleições da FENAJ




Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) está em clima de campanha eleitoral. Uma nova direção deverá ser escolhida pelos jornalistas para tocar esta que é a instituição máxima da categoria no Brasil. Duas chapas se apresentaram com propostas para o próximo biênio. Uma delas, a da situação (Chapa1), causa surpresa ao expressar no seu nome uma idéia de mudança. Virar o jogo, diz o grupo que está na direção há anos, sempre executando a mesma política

Já a Chapa 2, Luta, Fenaj! é um movimento que reúne jornalistas em todo o país na defesa dos direitos da categoria e por mudanças na política conduzida pela atual direção da Fenaj, a Federação Nacional dos Jornalistas. Em 2010, o Luta, Fenaj! montou uma chapa para disputar as eleições da direitoria da entidade, que acontecem de 27 a 29 de julho em todos os sindicatos filiados à federação.

Visite www.lutafenaj.com.br

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Congreso de Comunicación Alternativa: Medios, Estado y Política COMEP


En un contexto histórico político donde las distintas sociedades latinoamericanas ponen en discusión la impronta político cultural neoconservadora, una revisión profunda incluye los procesos de producción y reproducción del conocimiento.

En Argentina, nos encontramos ante una oportunidad histórica de discusión de las políticas públicas comunicacionales a partir de la reciente sanción de la Ley de Servicios Audiovisuales. Trabajar en una nueva agenda de discusiones latinoamericanas destinadas a un programa regional de formación de comunicadores sociales y periodistas en pos de sociedades inclusivas es uno de los objetivos centrales de este congreso.

Fecha límite para presentación de resúmenes: 08 de Agosto
Fecha límite para la presentación de ponencias: 17 de Septiembre

Mesas de Trabajo
1. Comunicación y Políticas Públicas
2. Ley de servicios audiovisuales: antecedentes, discusiones y prospectiva
3. Los medios y las implicancias en la trama sociocultural
4. Los medios frente al avance tecnológico
5. Movimientos sociales y de comunicación: estrategias
6. Periodismo y Periodistas: responsabilidad civil y ética periodística en las sociedades contemporáneas
7. Comunicación, política y medios: construcción de las agendas
8. Los medios de Comunicación en América Latina: la vinculación de los medios con los procesos políticos
9. Usos sociales de los medios
10. Experiencias y prácticas de comunicación alternativa

* Para mayor información:
Web: www.congresocomep.wordpress.com
Correo: comep@perio.unlp.edu.ar

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Futebol e o brilho da liberdade


O Observatório da Imprensa veiculado na terça-feira (6/7) pela TV Brasil exibiu uma entrevista especial de Alberto Dines com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, gravada em 30/6, em Montevidéu. O assunto? Futebol, é claro. Em tempos de Copa do Mundo, Galeano interrompe todas as suas atividades para dedicar-se inteiramente aos jogos. Chega a "disputar" três partidas por dia. Na porta de sua casa, uma placa desenhada pelo próprio escritor avisa: "Cerrado por fútbol". E só retoma as atividades após o apito final do último jogo do mundial.

Autor de mais de 40 livros de ficção, análise política, jornalismo e história, Galeano completa este ano meio século de atividade intelectual. Entre suas obras mais conceituadas está Futebol ao Sol e à Sombra, uma coletânea de ensaios e crônicas sobre o esporte. Na abertura do programa, gravada no Estádio Centenário de Montevidéu, palco da primeira Copa do Mundo, Dines anota que a equipe da TV Brasil foi ao Uruguai "especialmente para encontrar uma das figuras máximas das letras latino-americanas e da cultura uruguaia".

Na entrevista, Galeano explicou a Dines que a placa é uma antiga tradição dele e de sua mulher, Helena. A cada ano, desenha um novo cartaz. "A gente fica aqui vendo todas as partidas. Nós dois somos malucos por futebol", disse. O escritor admitiu que o esporte, muitas vezes, causa sofrimento, mas ponderou que também é fonte de felicidade. "É uma alegria estranha. É uma alegria que dói", explicou.

Assista o vídeo da entrevista

http://www.youtube.com/watch?v=_xsJ7pl8RFA&feature=player_embedded#!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Sem provas, CPI do MST é arquivada


Não há desvio de dinheiro público para a ocupação de terra no Brasil.

Foi o que concluiu o relatório apresentado nesta quarta-feira (08) da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigou a ligação entre entidades da reforma agrária e ministérios do governo. No total, foram realizadas treze audiências públicas em oito meses. A CPMI também investigou as contas de dezenas de cooperativas de agricultores e associações de apoio à reforma agrária.

O relator da CPMI, deputado federal Jilmar Tatto (PT/SP), comenta as conclusões do trabalho.

“Foi uma CPMI desnecessária. Na verdade são entidades sérias que desenvolvem um trabalho de aperfeiçoamento e de qualificação técnica do homem do campo. O que deu para perceber foi que a oposição, principalmente o DEM e o PSDB, estavam com uma política de criminalizar o movimento social no Brasil. Tanto é verdade que, depois de instalada a CPMI, eles não apareceram nas reuniões.”

O deputado federal Onxy Lorenzoni (DEM/RS) pediu vista do relatório durante a última sessão. Com isso, uma nova reunião foi marcada para a próxima quarta-feira (14). A expectativa é de que a bancada ruralista coloque em votação um relatório paralelo à relatoria oficial, mesmo não tendo participado das audiências de investigação.

“Eles tentaram como último suspiro prorrogar a CPMI. Eu fiquei sabendo que eles não conseguiram as assinaturas para essa prorrogação. Então só cabe a oposição apresentar um relatório alternativo.”

Para Jilmar Tatto, a CPMI reafirmou a importância dos convênios estabelecidos para a execução de políticas públicas nos assentamentos e nas áreas rurais.

“Essas entidades fazem a ponte entre os órgãos do Estado com aquelas pessoas que mais precisam, fazem um trabalho fundamental de resgate da cidadania desses setores da sociedade que estão marginalizados.”

terça-feira, 22 de junho de 2010

Os cidadãos do terceiro tempo.


A bola da vez é a bola. O sol da terra!O cenário da Copa do Mundo, enquanto manifestação cultural, sempre nos instiga a alguns questionamentos, sobretudo ao observarmos a magnitude de um evento outrora restrito ao estádio, agora em sua esfera cada vez mais mercantil e midiatizada.

No entanto, um dos princípios fundamentais, talvez esquecido pela produção midiática da Copa 2010, é o reconhecimento das diferenças culturais e econômicas que fundamentam a realidade, bem como a expressão da subjetividade do seu público, tanto o torcedor quanto o telespectador. Evidencia-se que o único critério de noticiabilidade é a surpresa e o detalhe hiper-reprisado, como o super close no tornozelo torcido de um jogador, ou a comemoração esquisita de algum fanático nas arquibancadas. Pelas objetivas digitais, registram-se e remodelam-se identidades que são concebidas na expressão de distintas raças, gêneros e etnias, especialmente quando construídas sob as lágrimas da vitória, mas, sobretudo as da derrota.

Em outras palavras, os processos de midiatização da Copa 2010 dinamizam os espaços de publicização das identidades culturais, especialmente através de imagens que estampam as cores e símbolos de uma nação, trazendo à tona o deslumbrar de uma memória socialmente construída, como nos lembra Stuart Hall. Nesse sentido, o espaço midiático efetiva-se como um canal onde muitos valores e produtos são legitimados, na maioria das vezes sem a intervenção ativa dos telespectadores: a oferta midiática é sempre maior do que a demanda do receptor, alerta Dominique Wolton.

Mão dupla

Mas qual a intenção dessa midiatização cultural-identitária? Em que medida o público, tanto o telespectador como o midiatizado, pode considerar-se cidadão nesse espaço?

Não podemos deixar de destacar os interesses comerciais, de marketing, venda e autopromoção das grandes multinacionais. Porém, todas acionam o discurso nacionalista, dependendo da tela em que aparecem: as marcas européias, asiáticas e norte-americanas são agora fanáticas pela seleção verde e amarela. Nessa época, a incitação ao consumo beira o extremo. Aproveitam nossa sensibilidade à flor de uma pele que treme frente à tela na espera de seu time. Não pretendemos com esse discurso neutralizar o papel do mercado, mas evidenciá-lo a partir de uma perspectiva crítica, que leve em consideração a complexidade dos valores contidos nessas trocas e construções identitárias e culturais.

Obviamente, os grandes grupos midiáticos precisam de patrocinadores que assegurem economicamente suas programações, como tais patrocinadores necessitam da mídia para que sua produção seja socialmente visualizada: a relação é de mão dupla. O telespectador é chamado apenas para o terceiro tempo, o do consumo – ou seja, o da pós-produção.

Valores e culturas

A midiatização das diversas culturas facilitada pela Copa do Mundo deve ir além de uma intenção estritamente mercantil ou publicitária. Como afirma Nestor G. Canclini, as relações que movimentam a produção e o consumo mercantil devem ser compreendidas a partir da complexidade das realidades multiculturais. Para Canclini, a prática da cidadania passa também pelo consumo, mas não apenas pelo consumo midiático, ou o que se efetiva no campo do terceiro tempo. Isso nos leva a considerar que este espaço midiático-mercantil não é autossuficiente para o consumo cidadão, visto que a cidadania – nessa perspectiva – é limitada, pois ocorre muitas vezes por vias desiguais de aquisição como de demanda.

Herbert de Souza, o Betinho, pontua que "o termômetro que mede a democracia em uma sociedade é o mesmo que mede a participação dos cidadãos na comunicação". Assim, que seja concedida voz a esse público que também almeja ser cidadão ao expressar seus valores, culturas e identificações, não apenas no terceiro tempo, mas enquanto o jogo é jogado. Quem sabe um dia, a Copa do Mundo midiatizada constitua-se como um espaço onde o cidadão seja mais do que um fanático torcedor.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago, Prêmio Nobel, Comunista, e filho de analfabetos


Foto: Sebastião Salgado

Intervir...

"Inventámos uma espécie de pele grossa que nos defende dessa agressão da realidade, que nos levaria a assumi-la, a percebermos o que se está a passar e a fazer o que finalmente se espera de um cidadão, que é a intervenção".

Organização popular...

"O mal é não estarmos organizados, devia haver uma organização em cada prédio, em cada rua, em cada bairro, Um governo, disse a mulher, Uma organização, o corpo também é um sistema organizado, está vivo enquanto se mantém organizado, e a morte não é mais do que o efeito de uma desorganização,… ("Ensaio Sobre a Cegueira")



"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma".

Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008

"...O importante foi ter vindo,
o importante é o caminho que se fez,
a jornada que se andou"


“Tirou o pequeno aparelho do bolso exterior do casaco e ligou-o (...) o ponteiro de sintonização continuava a extrair ruídos da pequena caixa, depois fixou-se, era uma canção, uma canção sem importância, mas os cegos foram se aproximando devagar, não se empurravam, paravam logo que sentiam uma presença à sua frente e ali se deixavam ficar, a ouvir com os olhos muito abertos na direção da voz que cantava, alguns choravam, como provavelmente só os cegos podem chorar, as lagrimas correndo simplesmente, como de uma fonte" (Ensaio sobre a cegueira)

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Veja vídeo sobre a primeira turma de “jornalismo da terra”


A primeira turma de jornalismo para integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é uma iniciativa histórica, que está gerando grandes expectativas.

Uma comunicação diferente, voltada para as necessidades do povo do campo. É o que todos esses jovens desejam. E partir de agora vão poder lutar por isso como jornalistas.

Veja vídeo sobre a primeira turma de “jornalismo da terra”, um curso superior oferecido pela UFC (Universidade Federal do Ceará), por meio do Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera).

Vídeo disponível em:

http://www.ufc.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=9259&Itemid=86

quarta-feira, 16 de junho de 2010

A experiência da Compós


Participar da Compós era uma inquietação desde o tempo do mestrado. Em nosso caso, o primeiro desafio foi animar os primeiros passos rumo à escrita do artigo, que aos poucos foi se concretizando no debate sobre a temática, leituras individuais e momentos de partilha e escrita conjunta. Ou seja, a primeira expectativa era escrever um bom artigo, mas que não fugisse das temáticas de nossas pesquisas, no caso, Rádio comunitária e Cidadania. Com a parceria de nosso orientador Valdir Jose Morigi, idealizamos o envio do mesmo ao GT Comunicação e Sociabilidade, onde depois, para nossa alegria e certa surpresa, foi selecionado.

Os primeiros passos, após aprovação e comemoração, foi discutir a apresentação (com ou sem Power-point, ler ou não ler, quanto tempo teremos?). Sabendo dos rigores e do grau de crítica deste GT, demos ênfase no debate sobre os pontos fracos e possíveis perguntas que nos poderiam ser feitas, como também a resposta para as mesmas. Estávamos nos armando para a entrada em campo. Outra preocupação, se não a maior, foi o compromisso de relatar o artigo da professora Janice Caiafa, da UFRJ. O momento do relato nos exigiu outras leituras e cuidado, pois estávamos diante de um grande artigo, que abordava reflexões que não faziam parte do nosso domínio teórico. Da mesma forma, recebemos, previamente, o relato do nosso artigo, feito pela professora Yvana Fechine da UFPE, que pontuou algumas críticas sobre nossa definição conceitual.

Outra expectativa foi em relação ao envio da passagem e indicação de onde ficar no Rio de Janeiro, sendo que essas despesas são pagas ao primeiro autor do artigo. E, como fica os co-autores? É certo que ajuda financeira do PPG conta, e muito. Com as informações nas mãos, seguimos viagem. Após o cancelamento do vôo, tivemos a grata alegria de viajar ao lado das profas. Cida e Milena. Elas nos apresentaram os primeiros lugares da cidade maravilhosa que nos acolheu no seu melhor estilo, sol e calor.

No primeiro dia do evento, tudo era novidade. Vinte minutos de apresentação, dez minutos destinado ao relator e cinco de tréplica. Muitas formalidades. No entanto, elas asseguram elevado nível de discussão. Respostas concisas, coerentes e focalizadas.

Nosso relato e apresentação ocorreram no segundo dia. Alguns problemas técnicos, como não abertura de arquivo e impressão errada do relato, fatores que nos deixaram sem o chão por alguns momentos. Mas diante do inesperado, o melhor é não perder a paciência e seguir no objetivo, que em nossa avaliação foi bem cumprido.

Após Compós fizemos um passeio pela parte dançante da capital, acompanhados de professores da UERJ e demais colegas como Denise Cogo, Sandra e Laura Barreras, Jousi Quevedo, Ana Carolina, Lilian. Na sexta-feira, antes do retorno, realizamos um breve passeio ao Pão de Açúcar e no centro da cidade. Andamos de Kombi alternativa, cruzamos a linha vermelha e de repente, depois de 1h30 de vôo já estávamos no Bom Fim. Inserir essa vivência no lattes foi nossa última ocupação, acompanhada, é claro, da esperança de uma próxima vez.

Por Joel Felipe Guindani, Cristóvão Domingos de Almeida e Valdir José Morigi.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Livro traz a história e perspectivas do rádio


Já está disponível o e-book E o rádio? Novos horizontes midiáticos, que reúne textos dos integrantes do Grupo de Pesquisa Rádio e Mídia Sonora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.
O livro tem a organização editorial de Luciano Klöckner e Luiz Artur Ferraretto e traz 40 artigos apresentados no XXXII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado em Curitiba, no ano passado, e que tratam de assuntos como história, ensino, cidadania, criatividade, publicidade, programação e futuro da mídia sonora.
Há contribuições de 11 estados, mais o Distrito Federal, que abrangem um conjunto de assuntos agrupados neste volume em oito seções temáticas: a primeira é sobre história e a última trata do futuro, das tendências, da geração digital. No meio desses dois vértices estão artigos sobre ensino, emissoras e ouvintes, criatividade sonora, publicidade e programas.
A obra pode ser consultada ou baixada, gratuitamente, na Internet. Para acessar o livro, lançado pela Editora da PUCRS clique aqui

http://www.pucrs.br/edipucrs/eoradio.pdf

sábado, 5 de junho de 2010

Lançada a Agência da Boa Notícia Guajuviras



"Sonhamos com este momento. Ele será um passo decisivo de transformação da realidade". Com essa frase, o prefeito Jairo Jorge deu início ao ato de assinatura do contrato com a Universidade do Vale do Rio dos Sinos,Unisinos para a execução do projeto Pronasci Observatório de Comunicação Cidadã - Agência da Boa Notícia Guajuviras.

O evento foi realizado nessa terça-feira, 1º, na sala de reuniões do gabinete do prefeito de Canoas representando o início oficial do projeto que se propõe a formar 240 jovens guajuvirenses para se tornarem comunicadores cidadãos, com acesso às tecnologias mais avançadas nas áreas de comunicação e informática. O Observatório é um projeto que integra o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), mas é Canoas o único Município onde o Pronasci tem um projeto que aposta especificamente na área da comunicação. Os alunos terão um ano de participação em oficinas de radioweb, web tv, internet, técnica de reportagem, vídeo documentário e outras, para produzir notícias e conteúdos de comunicação diversos sobre sua própria realidade.

O Prefeito de Canoas ainda falou sobre sua preocupação com a onda de violência que a cidade de Canoas está vivendo. São 44 homicídios a cada cem mil habitantes, enquanto em São Paulo, por exemplo, são 12 na mesma população. "Não acho que isso seja irreversível. É a marca de um tempo e suas contradições", insistiu Jorge. A prefeitura aposta em projetos estratégicos que estão sendo implementados em três formas: o policiamento comunitário, a inteligência e as oportunidades aos jovens. No segundo caso, o Prefeito destacou o sistema de detecção de tiros adotado em Canoas, a primeira cidade na América Latina com esse sistema. A expectativa é que ele ajude a salvar vidas. "A parceria com a Unisinos é essencial pela capacidade de pensar e o compromisso com a comunidade que caracteriza essa universidade", salientou Jairo Jorge.

O Vice-Reitor da Unisinos, Prof. Dr. José Ivo Follmann, também destacou o momento como um marco para a própria Universidade. "A Unisinos se sente muito orgulhosa e estimulada no desenvolvimento deste projeto. É um projeto que se posiciona contra o achatamento da vida", disse Follmann se referindo à imagem que foi construída pela mídia em geral sobre o bairro Guajuviras. O Vice-Reitor acredita que a comunicação cidadã resgata a auto-estima e a hetero-estima dos jovens e isso vai fazer com que eles se tornem comunicadores. Follmann qualificou o Pronasci como uma das melhores coisas que se inventaram no Brasil nos últimos anos.

Alberto Kopittke, Secretário de Segurança de Canoas, agradeceu o apoio da Prefeitura e a parceria da Unisinos, principalmente agradeceu à coordenadora geral e mentora do Projeto Andrea de Freitas, da Secretaria de Segurança e à coordenadora Pedagógica, Profa. Dra. Christa Berger, do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos. "A Agência vai possibilitar mostrar tudo o que a comunidade cria de cultura", disse Kopittke e apresentou o projeto ao público presente, inclusive a infraestrutura da Agência como uma sala multimídia, oficinas e estúdios de web rádio e web tv.

A coordenadora pedagógica do Projeto e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, Christa Berger, afirmou que o momento era importante também para o Programa de Pós Graduação da Unisinos porque o projeto dava continuidade a uma tradição em pesquisa em Comunicação alternativa em plena sintonia com as resoluções do I Conferência Nacional de Comunicação. "O que há de mais avançado em tecnologia estará a serviço dos jovens do Guajuviras para eles se apossarem da palavra. Nos empenharemos em ajudar os jovens a produzir conteúdos socialmente relevantes e emancipadores. Eles conseguirão contar suas histórias e as histórias do Guajuviras", destacou a professora.

Sonia Montaño - Agência da Boa Notícia Guajuviras

sábado, 29 de maio de 2010

Sem vice Serra não versa e nem prosa



Desde a infância reparei que os tucanos não voam alto e não revoam por muito tempo. Talvez pelo peso do bico ou por acharem as estrelas sempre distantes. Preferem o chão e, mesmo estando nele, na maioria das vezes são desajeitados, tropeçam e se enroscam. Nessas enroscadas, sem um vice definido, Serra continua ciscando no terreiro das possibilidades. Ou seja, sem um um vice Serra não versa e nem prosa. Já a Dilma tem vice e versa. Com a estrela no peito, voa no vento e na prosa do filho do Brasil. Será que essa revoada não está para tucanos?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Rádios via internet são proibidas de transmitir os jogos da Copa


A medida imposta pela FIFA visa proteger a detentora oficial dos direitos de transmissão da Copa 2010, a Rede Globo

Mantendo a mesma medida de 2006, as rádios via internet não estão autorizadas a transmitirem os jogos da Copa do Mundo FIFA 2010, que será realizada na África do Sul a partir do mês que vem. A medida também vale para as estações AMs e FMs que possuem seus áudio ao vivo disponibilizados na internet.

A medida é imposta pela FIFA para proteger a detentora oficial dos direitos de transmissão da Copa 2010, a Rede Globo. A emissora carioca vai realizar transmissão com imagem dos jogos da Seleção Brasileira através de seu portal, conforme já anunciado pela própria rede. As demais rádios como Eldorado, Jovem Pan, Itatiaia, Bandeirantes, Gaúcha, Super Radio Tupi, Transamérica, entre outras, também possuem os direitos de transmissão, porém por vias terrestres.

Em resumo: essas estações realizarão a transmissão apenas por via terrestres, ou seja, via radiodifusão convencional. As afiliadas dessas redes nacionais deverão desligar seus sistemas de streaming durante as transmissões dos jogos da Copa, ou inserir outra programação na internet. Essa situação já foi constatada em 2006: as grandes marcas de São Paulo executaram outra grade na internet.
Também está proibida a transmissão para dispositivos móveis, como celulares smartphones.

Fonte: TudoRádio.com

terça-feira, 25 de maio de 2010

Compós 2010 - PUC-RIO



"Cada vez que o reino do humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que à maneira de Perseu (o herói mitológico que decepa a cabeça da Medusa porque voa com sandálias aladas. Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar) eu devo voar para outro espaço. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. As imagens de leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos..." Italo Calvino

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O fetiche de quantidade


Metas de produtividade e burocracia acadêmica diminuem o potencial de pesquisas científicas. A criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil.

A cada tanto tempo, volta-se a discutir como deve ser avaliado o trabalho dos professores. O grande número de pessoas envolvidas nos diversos níveis de ensino, assim como o de artigos e livros que materializam resultados de pesquisa, tem determinado uma preferência por medidas quantitativas.
Se estas podem trazer informações úteis como dado parcial para comparar resultados de escolas em vestibulares ou o desempenho médio de alunos em determinada matéria, sua aplicação como único critério de "produtividade" na pós-graduação vem gerando -a meu ver, pelo menos- distorções bastante sérias.
Não é meu intuito recusar, em princípio, a avaliação externa, que considero útil e necessária. Gostaria apenas de lembrar que a criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil. Tampouco me parece correta a fetichização da forma "artigo em revista" em detrimento de textos de maior fôlego, para cuja elaboração, às vezes, são necessários anos de trabalho paciente.
A mesma concepção tem conduzido ao encurtamento dos prazos para a defesa de dissertações e teses na área de humanas, com o que se torna difícil que exibam a qualidade de muitas das realizadas com mais vagar, que (também) por isso se tornaram referência nos campos respectivos.
O equívoco desse conjunto de posturas tornou-se, mais uma vez, sensível para mim ao ler dois livros que narram grandes aventuras do intelecto: "O Último Teorema de Fermat", de Simon Singh (ed. Record), e "O Homem Que Amava a China", de Simon Winchester (Companhia das Letras).
O leitor talvez objete que não se podem comparar as realizações de que tratam com o trabalho de pesquisadores iniciantes; lembro, porém, que os autores delas também começaram modestamente e que, se lhes tivessem sido impostas as condições que critico, provavelmente não teriam podido desenvolver as capacidades que lhes permitiram chegar até onde chegaram.

Everest da matemática
O teorema de Fermat desafiou os matemáticos por mais de três séculos, até ser demonstrado em 1994 pelo britânico Andrew Wiles. O livro de Singh narra a história do problema, cujo fascínio consiste em ser compreensível para qualquer ginasiano e, ao mesmo tempo, ter uma solução extremamente complexa. Em resumo, trata-se de uma variante do teorema de Pitágoras: "Em todo triângulo retângulo, a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa", ou, em linguagem matemática, a2²=b2²+c2².
Lendo sobre esta expressão na "Aritmética" de Diofante (século 3º), o francês Pierre de Fermat (1601-65) -cuja especialidade era a teoria dos números e que, junto com Pascal, determinou as leis da probabilidade- teve a curiosidade de saber se a relação valia para outras potências: x3³= y3³ + z3, x4 = y4 + z4 e assim por diante. Não conseguindo encontrar nenhum trio de números que satisfizesse as condições da equação, formulou o teorema que acabou levando seu nome -"Não existem soluções inteiras para ela, se o valor de n for maior que 2"- e anotou na página do livro: "Encontrei uma demonstração maravilhosa para esta proposição, mas esta margem é estreita demais para que eu a possa escrever aqui".
Após a morte de Fermat, seu filho publicou uma edição da obra grega com as observações do pai. Como o problema parecia simples, os matemáticos lançaram-se à tarefa de o resolver -e descobriram que era muitíssimo complicado.
Singh conta como inúmeros deles fracassaram ao longo dos 300 anos seguintes; os avanços foram lentíssimos, um conseguindo provar que o teorema era válido para a potência 3, outro (cem anos depois) para 5 etc. O enigma resistia a todas as tentativas de demonstração e acabou sendo conhecido como "o monte Everest da matemática". É quase certo que Fermat se equivocou ao pensar que dispunha da prova, que exige conceitos e técnicas muito mais complexos que os disponíveis na sua época.
Quem a descobriu foi Andrew Wiles, e a história de como o fez é um forte argumento a favor da posição que defendo. O professor de Princeton [universidade americana] precisou de sete anos de cálculos e teve de criar pontes entre ramos inteiramente diferentes da disciplina, numa epopeia intelectual que Singh descreve com grande habilidade e clareza. Não é o caso de descrever aqui os passos que o levaram à vitória; quero ressaltar somente que, não tendo de apresentar projetos nem relatórios, publicando pouquíssimo durante sete anos e se retirando do "circuito interminável de reuniões científicas", Wiles pôde concentrar-se com exclusividade no que estava fazendo.
Por exemplo, passou um ano inteiro revisando tudo o que já se tentara desde o século 18 e outro tanto para dominar certas ferramentas matemáticas com as quais tinha pouca familiaridade, mas indispensáveis para a estratégia que decidiu seguir. Questionado por Singh sobre seu método de trabalho, Wiles respondeu: "É necessário ter concentração total. Depois, você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento, durante o qual, aparentemente, o inconsciente assume o controle. É aí que surgem as ideias novas".
Este processo é bem conhecido e costumo recomendá-lo a meus orientandos: absorver o máximo de informações e deixá-las "flutuar" até que apareça algum padrão, ou uma ligação entre coisas que aparentemente nada têm a ver uma com a outra. Uma variante da livre associação, em suma.
Ora, se está correndo contra o relógio, como o estudante pode se permitir isso? A chance de ter o "estalo de Vieira" é reduzida; o mais provável é que se conforme com as ideias já estabelecidas, o que obviamente diminui o potencial de inovação do seu trabalho.
Renato Mezan

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Incomodados com Veja?


** Veja sempre pegou pesado, sempre misturou opinião com informação, sempre enfiou declarações descontextualizadas na boca dos entrevistados. Sempre aberta a "plantações", durante 20 anos ACM deitava e bordava, depois abriu-se indiscriminadamente aos "grampos", enturmando-se com quem tinha um saquinho de lama para jogar no desafeto.

** Veja sempre simplificou e distorceu. E quanto mais leve e saborosa pretendia ser, mais desqualificada. Mesmo quando a favor.

* Veja sempre praticou vendetas. A revista tem uma lista negra, própria e implacável, "não-pessoas" e "não-entidades" condenadas à inexistência. Através deste index Madame Torquemada assume-se como dona da verdade e senhora dos destinos. Sempre incensou os amiguinhos, sempre condenou ao ostracismo os que não faziam parte da curriola.

* Veja sempre produziu megalomanias em estado puro, forjadas pelo simples ato de colocar na cadeira do diretor de Redação profissionais sem o estofo adequado. O chamado estilo Veja não caiu do céu, foi sendo consolidado ao longo dos últimos 20 anos. Mario Sergio Conti, em Notícias do Planalto conta muita coisa sobre o patriarca e a gênese deste estilo. Admite que o praticou – era a escola, todos deveriam adotá-la por convicção ou mimetismo.

A diferença agora é que Veja pegou numa instituição-darling. E todos chiaram. Acabou a impunidade. Veja (e os que pretendem imitá-la) passarão a receber troco.

O documento apócrifo contra Veja que circulou nas duas ultimas semanas pelo Outlook de milhares de brasileiros – multiplicado pelo "agit-prop" do MST – é o retorno de um bumerangue lançado pelo próprio semanário com sua matéria abjeta.

Como avalia o procedimento adotado por Veja para incluí-lo na matéria?

José de Souza Martins – Considero-o um desrespeito à minha pessoa e ao meu trabalho. Em conseqüência, tenho recebido mensagens de insulto até de ex-alunos, espantados com a "minha mudança". Esse é um comportamento cujos efeitos danosos dificilmente serão consertados ao longo de minha vida pessoal e profissional. Quem leu a matéria de Veja, especialmente quem não me conhece, dificilmente lerá o artigo original e dificilmente levará em conta o conjunto de minha obra e o meu próprio caráter.

O que dizer da cobertura que a mídia faz do MST e da questão da reforma agrária?
José de Souza Martins – A mídia está desinformada. A questão agrária é muito complicada e os jornalistas parecem não ter tempo nem paciência para entendê-la, fazer as perguntas corretas e formar corretamente a opinião pública. Na cobertura que faz das ações do MST tenta apenas trazê-lo para o espetáculo da informação, sem se preocupar com as óbvias contradições do movimento e com os graves problemas sociais que o motivam e as graves injustiças que lhe deram vida. A mídia também cobre mal importantes inovações na ação do governo, que institucionaliza um amplo programa de intervenção na questão agrária, para atenuar ou suprimir os erros e defeitos da Lei de Terras de 1850, responsável pelos problemas que estamos vivendo, e na ação do Estado.

Confira mais em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/iq20052000.htm#questao01

terça-feira, 18 de maio de 2010

Rede AMLAT lança livros sobre metodologia e pesquisa em Comunicação na América Latina


No dia 27 de maio de 2010, no primeiro dia do III Seminário Latino-Americano de Metodologias Transformadoras em Comunicação, Educação e Cidadania, teremos o lançamento de dois livros Rede AMLAT. O evento será realizado no Auditório da Reitoria da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Campus da cidade de João Pessoa, Paraíba.
O livro “Metodologias Transformadoras: Tejiendo la red em comunicación, Educación, Ciudadania y integración en América Latina”, coordenado pelos pesquisadores Adrian Padilla (Universidad Nacional Experimental Simon Rodriguez, da Venezuela) e Alberto Efendy Maldonado (GP ProcessoCom/ PPGCOM/Unisinos, Brasil), foi editado pelo Fondo Editorial CEPAP, da Venezuela, no final de 2009. Trata-se de uma obra coletiva da Rede AMLAT que apresenta a diversidade teórica e metodológica das comunidades acadêmicas participantes deste projeto de integração latino-americana no âmbito da pesquisa em Comunicação.
O segundo livro, “Investigación de la Comunicación en América Latina”, coordenado pelos pesquisadores Alberto Pereira Valarezo (FACSO/UCE, Equador) e Alberto Efendy Maldonado (GP ProcessoCom/ PPGCOM/Unisinos, Brasil), é o resultado do encontro teórico-metodoló gico da Rede AMLAT, realizado em dezembro de 2009, em Quito-Equador, e foi editado pelo Centro Académico de Diseño y Producción Editorial FACSO- UCE, no início deste ano. O livro está dividido em três partes: I-“Teorías y Metodologías suscitadoras” ; II- “Investigación en comunicación digital”; e III “Investigación en comunicación alternativa y educomunicació n”.
A Rede AMLAT - Rede Temática ‘Comunicação, Cidadania, Educação e Integração na América Latina’ faz parte do Programa Sul-Americano de Apoio às atividades de Cooperação em Ciência e Tecnologia – PROSUL/CNPq.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Serra pode mais...


Serra pode mais.
Serra pode roubar mais.
Pode aumentar a inflação.
Pode perseguir os movimentos sociais.
Pode comprar o PiG.
Pode aumentar o desemprego.
Pode aumentar os juros.
Pode demitir servidor público.
Pode privatizar o Banco do Brasil, a CEF, o BNDES, a PETROBRAS.
Pode acabar com o PAC.
Pode acabar com o Bolsa Família.
Pode entregar o Pré-sal aos gringos.
Pode acabar com as universidades federais.
Pode jogar corrupção para debaixo do tapete.
Pode comprar deputados.
Pode pedir novos empréstimos ao FMI.
Pode recriar o CPMF.
Pode acabar com o Piso Nacional do Magistério.
Pode aderir à ALCA, ao invés do MERCOSUL.
Pode aumentar tributo.
Pode arrochar o salário do servidor público.
Pode colocar a PF para bater em grevista.
Pode abafar CPI.
Pode nomear FHC para o Ministério da Fazenda(este adora o FMI.
Pode nomear Daniel Dantas para o Ministério da Justiça(este é de uma honestidade imensurável).
Pode nomear Eduardo Azeredo para o Banco Central(este entende de caixa dois).
Pode nomear Sérgio Guerra para o Ministério do Planejamento(este entende muito bem de orçamento).
Pode nomear Roberto Arruda para o Ministério do Bem-Estar Social(panetone é o que não vai faltar.
Pode nomear Kátia Abreu para o Ministério da Reforma Agrária(esta entende de trabalho escravo).
E por aí vai.

Juciano Lacerda

sábado, 8 de maio de 2010

A história do boneco de sal,


A invés de crescer para fora, podemos crescer para dentro na medida em que criamos um centro onde as coisas se unificam e descobrimos como de tudo podemos aprender.

***

por Leonardo Boff*


Nos últimos tempos, temos dedicado nossas reflexões quase que exclusivamente às questões ambientais e aos desafios que as mudanças climáticas implicam para o futuro de nossa civilização, para a produção e o consumo.

Nem por isso devemos descurar os problemas cotidianos, a construção continuada de nossa identidade e a moldagem de nosso sentido de ser. É uma tarefa nunca terminada. Entre muitas, duas provocações estão sempre presentes e temos que dar conta delas: a aceitação dos próprios limites e a capacidade de desapegar-se.

Todos vivemos dentro de um arranjo existencial que, por sua própria natureza, é limitado em possibilidades e nos impõe barreiras de toda ordem, de lugar, de profissão, de inteligência, de saúde, de economia, de tempo. Há sempre um descompasso entre o desejo e sua realização. E, às vezes, nos sentimos impotentes face a dados que não podemos mudar, como a presença de um esquizofrênico com seus altos e baixos ou um doente terminal. Temos que nos resignar face a esta limitação intransferível. Nem por isso precisamos viver tristes ou impedidos de crescer. Há que ser criativamente resignados. A invés de crescer para fora, podemos crescer para dentro na medida em que criamos um centro onde as coisas se unificam e descobrimos como de tudo podemos aprender. Bem dizia a sabedoria oriental: “Se alguém sente profundamente o outro, este o perceberá mesmo que esteja a milhares de quilômetros de distância”. Se te modificares em teu centro, nascerá em ti uma fonte de luz que irradiará para os outros.

A outra tarefa da autorrealização é a capacidade de desapegar-se. O zen-budismo coloca como teste de maturidade pessoal e liberdade interior a capacidade de desapegar-se e de despedir-se. Se observamos bem, o desapego pertence à lógica da vida: despedimo-nos do ventre materno; em seguida, da meninice, da juventude, da escola, da casa paterna, de parentes e da pessoa amada. Na idade adulta, despedimo-nos de trabalhos, de profissões, do vigor do corpo e da lucidez da mente que irrefregavelmente vão se desgastando até despedirmo-nos da própria vida. Nestas despedidas, deixamos um pouco de nós mesmos para trás.

Qual é o sentido deste lento despedir-se do mundo? Mera fatalidade irreformável da lei universal da entropia? Essa dimensão é irrecusável. Mas será que ela não guarda um sentido existencial, a ser buscado pelo espírito? Se, fenomenologicamente, somos um projeto infinito e um vazio abissal que clama por plenitude, será que esse desapegar-se não significa criar as condições para que um Maior nos venha preencher? Não seria o Supremo Ser, feito de amor e bondade, que nos vai tirando tudo para que possamos ganhar tudo, no além vida, quando nossa busca finalmente descansará?

Ao perder, ganhamos e ao esvaziarmo-nos, ficamos plenos. Dizem por aí que esta foi a trajetória de Jesus, de Buda, de Francisco de Assis, de Gandhi, de Madre Teresa e de outros.

Talvez um história dos mestres espirituais antigos nos esclareça o sentido da perda que produz um ganho. “Era uma vez um boneco de sal. Após peregrinar por terras áridas, chegou a descobrir o mar que nunca vira antes e por isso não conseguia comprendê-lo. Perguntou o boneco de sal: “Quem és tu?” E o mar respondeu: “Eu sou o mar”. Tornou o boneco de sal: “Mas que é o mar?” E o mar respondeu: “Sou eu”. “Não entendo”, disse o boneco de sal. “Mas gostaria muito de compreender-te; como faço?” O mar simplesmente respondeu: “Toca-me”. Então o boneco de sal, timidamente, tocou o mar com a ponta dos dedos do pé. Percebeu que aquilo começou a ser compreensível. Mas logo se deu conta de que haviam desaparecido as pontas dos pés. “Ó mar, veja o que fizeste comigo”. E o mar respondeu: “Tu deste alguma coisa de ti e eu te dei compreensão; tens que te dares todo para me compreender todo”. E o boneco de sal começou a entrar lentamente mar adentro, devagar e solene, como quem vai fazer a coisa mais importante de sua vida. E na medida wm que ia entrando, ia também se diluindo e compreendendo cada vez mais o mar.

E o boneco continuava perguntando: “Que é o mar”. Até que uma onda o cobriu totalmente. Pôde ainda dizer, no último momento, antes de diluir-se no mar: “Sou eu”. Desapegou-se de tudo e ganhou tudo: o verdadeiro eu.

Por justiça e comunicação social: o Movimento Sem Terra na sociedade em midiatização


RESUMO

Trata da discussão sobre as ações comunicacionais do Movimento Sem Terra (MST) na relação com a perspectiva teórica da midiatização. Sob a modalidade metodológica da Pesquisa Participante, reflete sobre como o MST está lidando com os desafios originados pela crescente midiatização social, com vistas ao desenvolvimento de seu próprio campo midiático. Através de entrevistas com lideranças nacionais e militantes da base, identifica-se que o MST reconhece a comunicação como uma indispensável estratégia para suas ações e lutas na conquista da terra. Na batalha por justiça, a comunicação social é realidade não apenas na agenda ideológica do MST, mas também nos espaços em que se concretizam assentamentos, cooperativas, escolas, acampamentos e ocupações.

PALAVRAS-CHAVE: Comunicação; Movimentos Sociais; Movimento Sem Terra; Midiatização.

Versão completa com: j.educom@gmail.com

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Belo Monte: a volta triunfante da ditadura militar?


O governo Lula possui méritos inegáveis na questão social. Mas na questão ambiental é de uma inconsciência e de um atraso palmar. Ao analisar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) temos a impressão de sermos devolvidos ao século XIX. É a mesma mentalidade que vê a natureza como mera reserva de recursos, base para alavancar projetos faraônicos, levados avante a ferro e fogo, dentro de um modelo de crescimento ultrapassado que favorece as grandes empresas à custa da depredação da natureza e da criação de muita pobreza.

Este modelo está sendo questionado no mundo inteiro por desestabilizar o planeta Terra como um todo e mesmo assim é assumido pelo PAC sem qualquer escrúpulo. A discussão com as populações afetadas e com a sociedade foi pífia. Impera a lógica autoritária; primeiro decide-se depois se convoca a audiência pública. Pois é exatamente isto que está ocorrendo com o projeto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, estado do Pará.

Tudo está sendo levado aos trambolhões, atropelando processos, ocultando o importante parecer 114/09 de dezembro de 2009, emitido pelo IBAMA (órgão que cuida das questões ambientais), contrário à construção da usina, e a opinião da maioria dos ambientalistas nacionais e internacionais que dizem ser este projeto um grave equívoco com conseqüências ambientais imprevisíveis.

O Ministério Público Federal que encaminhou processos de embargo, eventualmente levando a questão a foros internacionais, sofreu coação da Advocacia Geral da União (AGU), com o apoio público do presidente, de processar os procuradores e promotores destas ações por abuso de poder.

Esse projeto vem da ditadura militar dos anos 70. Sob pressão dos indígenas apoiados pelo cantor Sting em parceria com o cacique Raoni foi engavetado em 1989. Agora, com a licença prévia concedida no dia 1º de fevereiro, o projeto da ditadura pôde voltar triunfalmente, apresentado pelo governo como a maior obra do PAC.

Neste projeto tudo é megalômano: inundação de 51.600 hectares de floresta, com um espelho d’água de 516 km², desvio do rio com a construção de dois canais de 500m de largura e 30 km de comprimento, deixando 100 km de leito seco,  submergindo a parte mais bela do Xingu, a Volta Grande e um terço de Altamira, com um custo entre 17 e 30 bilhões de reais, desalojando cerca de 20 mil pessoas e atraindo para as obras cerca de 80 mil trabalhadores para produzir 11.233 MW de energia no tempo das cheias (4 meses) e somente 4 mil MW no resto do ano, para, por fim, transportá-la até 5 mil km de distância.

Esse gigantismo, típico de mentes tecnocráticas, beira a insensatez, pois, dada a crise ambiental global, todos recomendam obras menores, valorizando matrizes energéticas alternativas, baseadas na água, no vento, no sol e na biomassa. E tudo isso nós temos em abundância. Considerando as opiniões dos especialistas podemos dizer: a usina hidrelétrica de Monte Belo é tecnicamente desaconselhável, exageradamente cara, ecologicamente desastrosa, socialmente perversa, perturbadora da floresta amazônica e uma grave agressão ao sistema-Terra.

Este projeto se caracteriza pelo desrespeito às dezenas de etnias indígenas que lá vivem há milhares de anos e que sequer foram ouvidas; desrespeito à floresta amazônica cuja vocação não é produzir energia elétrica mas bens e serviços naturais de grande valor econômico; desrespeito aos técnicos do IBAMA e a outras autoridades científicas contrárias a esse empreendimento; desrespeito à consciência ecológica que devido às ameaças que pesam sobre o sistema da vida pedem extremo cuidado com as florestas; desrespeito ao Bem Comum da Terra e da Humanidade, a nova centralidade das políticas mundiais.

Se houvesse um Tribunal Mundial de Crimes contra a Terra, como está sendo projetado por um grupo altamente qualificado que estuda a reinvenção da ONU sob a coordenação de Miguel d’Escoto, ex-presidente da Assembléia (2008-2009), seguramente os promotores da hidrelétrica de Belo Monte estariam na mira deste tribunal.

Ainda há tempo de frear a construção desta monstruosidade, porque há alternativas melhores. Não queremos que se realizem as palavras do bispo Dom Erwin Kräutler, defensor dos indígenas e contra Belo Monte: "Lula entrará na história como o grande depredador da Amazônia e o coveiro dos povos indígenas e ribeirinhos do Xingu".

Leonardo Boff, teólogo, é representante e co-redator da Carta da Terra.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Entrevista concedida ao Instituo Humanitas Unisinos (IHU)


IHU On-Line - Você define o MST, enquanto instituição, como midiatizado ou em processo de midiatização? Por quê?
Joel f. Guindani – Achar que tudo está midiatizado é reduzir a complexidade e a riqueza dos processos sociais, especialmente a dimensão criativa, bem como a incompletude da vida humana. Por outro lado, seria outro erro desconsiderar as afetações midiáticas sobre nossa realidade. Identifiquei, nesta pesquisa, que a criação, gestão e funcionamento das experiências comunicacionais do MST também são expressões da criatividade de sujeitos que almejam, em alguma proporção, à construção da cidadania, e não, exclusivamente, resquícios da cultura midiática.

A midiatização está imbricada nisso, mas não é a medida de tudo. Na mesma direção, a natureza das ações comunicacionais do MST, na maioria das vezes, não tem a intenção de ser midiatizada e, em segundo, pela impossibilidade de acesso à técnica, como, por exemplo, as manifestações comunicacionais, como as marchas e ocupações realizadas secretamente na escuridão da noite. Se definirmos qualquer manifestação comunicacional como midiatizada, corremos o risco de simplificar a existência deste movimento social somente a partir da cultura tecnológica. O MST, muitas vezes, age midiaticamente, mas não somente sob esta perspectiva. Se o MST fosse um movimento apenas midiático, os pés de laranja da Cutrale não seriam derrubados.
Confira mais em

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=31090

segunda-feira, 29 de março de 2010

Sem Terra protestam contra fechamento de escolas itinerantes no RS


Cerca de 100 sem terra protestam neste momento em frente à Secretaria Estadual de Educação (SEC) em Porto Alegre contra o fechamento das escolas nos acampamentos - as chamadas escolas itinerantes. As famílias exigem a reabertura das escolas, fechadas em fevereiro do ano passado pelo governo estadual a partir de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado com o Ministério Público Estadual (MPE).

O fechamento das escolas itinerantes afetou 280 crianças acampadas em todo o RS. Em São Gabriel, na Fronteira Oeste, 100 crianças acampadas estão sem ir à aula por falta de vagas. Em acampamentos de outras regiões do RS, os jovens precisam viajar quilômetros até as escolas nas cidades, tirando-lhes o direito de estudar em suas próprias comunidades, como prevê a lei. Além disso, muitas crianças mudam de escola mais de uma vez ao ano conforme o acampamento se desloca, prejudicando o seu processo de escolarização. Uma das características da escola itinerante é justamente a sua itinerância, acompanhando os acampamentos e garantindo que os filhos das famílias acampadas, que lutam por terra e melhores condições de vida, tenham educação e de qualidade.

EM SÃO GABRIEL, CRIANÇAS ASSENTADAS TAMBÉM NÃO TÊM AULA

Em São Gabriel, cerca de 300 crianças que já estão assentadas também estão sem aula. A prefeitura afirma que não tem vaga na rede municipal para todas as crianças. Também não há transporte e nem mesmo estradas, obrigando as crianças a caminharem até 8 quilômetros para chegar à estrada principal, onde passaria o ônibus escolar. As famílias já estão assentadas há mais de um ano em São Gabriel.

HISTÓRICO DO FECHAMENTO DAS ESCOLAS ITINERANTES

Em 28 de novembro de 2008, o governo do Estado assinou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Público Estadual (MPE) para fechar as escolas nos acampamentos sem terra. Segundo o TAC, até o dia 4 de março de 2009 deveriam ser desativadas as turmas, o que aconteceu em fevereiro daquele ano. As crianças deveriam ser matriculadas na rede
pública e ter transporte escolar. Caso não fosse cumprido, o governo do estado seria multado em um salário mínimo por dia de atraso. O MPE se comprometeu em fiscalizar o cumprimento do acordo pelo governo estadual.

Hoje, 100 crianças acampadas estão sem aula no RS e, as que têm aula, precisam viajar quilômetros para as escolas nas cidades, afetando sua a aprendizagem. O MPE não tomou nenhuma providência em relação a estes fatos, que desrespeitam o direito de acesso dos jovens à educação e de qualidade. O governo estadual, que na época garantiu que todas as crianças
teriam escola, também não tomou nenhuma providência.

As escolas itinerantes são reconhecidas pelo Conselho Estadual de Educação do RS, estão de acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) e o custo de sua manutenção, para o governo estadual, era baixo. As escolas continuam funcionando em outros estados do país com bons resultados. Isso mostra que elas são a melhor opção para as crianças sem terra acampadas.

domingo, 7 de março de 2010

RÁDIO TERRA LIVRE FM NO PERCURSO HISTÓRICO DA COMUNICAÇÃO POPULAR E COMUNITÁRIA

Resumo: Esta proposta de pesquisa tem por objetivo compreender a experiência de comunicação desenvolvida por agricultores Sem Terra localizados no Assentamento 25 de Maio, região oeste do estado de Santa Catarina. Trata-se de um estudo sobre a Rádio Terra Livre FM e demais ações de comunicação como cinema itinerante, festival de música e poesia, que nos auxiliam na compreensão tanto do percurso histórico, como na reflexão sobre o papel da comunicação popular e comunitária na contemporaneidade. Partimos da localização teórica desses conceitos, interligando-os com o percurso histórico, atividades culturais e com as formas de resistência que asseguram o funcionamento da emissora em estudo.

INTRODUÇÃO Esta pesquisa, busca compreender em que medida a Rádio Terra Livre FM e demais ações culturais realizadas no Assentamento 25 de Maio, constituem-se, na contemporaneidade, como integrantes do percurso histórico da comunicação popular e comunitária. A Rádio Terra Livre FM é um veículo de comunicação desenvolvido, desde o ano de 1996 e que congrega, no seu entorno, outras ações culturais como o Festival de Música e Poesia e Cinema Itinerante. Ações que, até o momento, representam indícios fundamentais para a compreensão da comunicação popular e comunitária como modo de expressão das classes populares na história, como na atualidade. Através da dinâmica metodológica da pesquisa participante, iniciada no mês de janeiro de 2010, adentramos no Assentamento 25 de Maio localizado no município de Abelardo Luz (SC) e entrevistamos ouvintes, locutores e lideranças do Movimento Sem Terra (MST), registramos a constituição histórica da rádio Terra Livre FM; desde o processo de sua fundação em 1996, como os períodos de interrupção na sua programação e ações de resistência dos comunicadores mediante ameaças criminais e perseguições políticas. Em parte do percurso investigativo já realizado, identificamos que as ações de comunicação popular e comunitária caracterizam-se como um enfrentamento ao projeto de dominação político-cultural capitalista, evidenciando-se assim, como espaços precursores e renovadores de um projeto popular de comunicação comunitária na contemporaneidade. Versão completa com: j.educom@gmail.com
Assista o vídeo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A rádio comunitária como uma prática da cidadania comunicativa


O meio radiofônico, como um espaço discursivo e produtor de sentidos, é concebido como facilitador para a constituição dos processos de construção e práticas da cidadania comunicativa.

Por isso, o meio radiofônico deve ser entendido como um agente que apresenta certas condições aos atores sociais que dele se apropriam e não apenas como um instrumento ou aparelho transmissor. Toda tecnologia confere aos sujeitos a necessidade da aprendizagem, primeiramente para sua apropriação e, posteriormente, para o próprio processo de produção e funcionamento. Percebemos o rádio como uma estrutura/espaço de produção simbólica e tem um extraordinário poder de tornar acessível à informação, contrariando os que subestimam esse veículo como um mero instrumento técnico, delegando-lhe uma posição secundária diante dos processos comunicacionais.

Conforme Ferrareto (2001), o rádio como um gênero de comunicação possui linguagens e formatos que orientam suas rotinas produtivas. Para o autor, a emissão da mensagem radiofônica também coloca alguns condicionantes como: “[...] a capacidade auditiva do receptor, a linguagem radiofônica, a tecnologia de transmissão e recepção empregada, a fugacidade, os tipos de público e as formas de recepção” (FERRARETO, 2001, p. 25). Na contemporaneidade, o espaço radiofônico é o da interatividade e da ação participativa na programação (BARBEIRO, 2004). Além de sua praticidade tecnológica, o rádio continua ...] modernizado, refeito, revigorado. Ele já não é aquele de Getúlio Vargas nem é o palanque sonoro da identidade nacional; é mais variável, diverso, multifacetado, fragmentado e imprescindível. Um pouco distante de ser um congregador nacional, assume com força e propriedade o de agregador local, um porta-voz da cidade, um agente comunitário (BUCCI, 2004, p. 8).

O espaço radiofônico surge, trazendo em si promessas, discursos, instituindo ou reforçando formas de sociabilidades, projetos comunitários, competências individuais, representações sociais, enfim, um potencializador de habilidades para os processos de constituição das práticas da cidadania comunicativa.

Como lembra Cogo (2004), a radiofonia possui suas lógicas, “[...] ao mesmo tempo em que também esses atores e movimentos se apropriam e reelaboram tais lógicas, transformando a esfera das mídias em um espaço simbólico de conflitos, disputas e negociações”. (COGO, 2004, p. 43) Dessas inter-relações entre o meio radiofônico e os sujeitos que dele se apropriam, emergem novas competências, habilidades e fazeres entre ambos, especialmente quando focamos nossa observação na dimensão da prática da cidadania comunicativa.

Direcionando nosso olhar reflexivo especificamente para a rádio comunitária, iremos descobrir outras dimensões que realçam ainda mais as especificidades desse meio de comunicação. Assim, quando refletimos sobre rádio comunitário devemos considerar que [...] a característica principal do veículo continua sendo a da proximidade com a comunidade local. Se a televisão aberta tomou para si o papel que a Rádio Nacional desempenhava, se a globalização e a tecnologia trazem cada vez mais as informações mundiais, cabe justamente ao rádio, devido às suas características inerentes, promover as informações locais (HAUSSEN, 2004, p. 61).

Para Haussen (2004), uma emissora comunitária estrutura-se a partir de demandas locais, especialmente aquelas que dizem respeito às necessidades básicas como o acesso à informação, divulgação de assuntos que interessam primeiramente à comunidade; à luta dos sujeitos engajados no debate por melhorias políticas, sociais e culturais. Nessa direção, identificamos que a rádio comunitária torna-se também um espaço para que o cidadão participe das decisões sobre as políticas locais ou, até mesmo, sobre a necessidade de um tipo de comunicação plural e mais democrática.

Peruzzo (2007) enfatiza que uma rádio comunitária deve ser reconhecida pelo trabalho que desenvolve; ela transmite uma programação de interesse social vinculada à realidade local, não tem fins lucrativos, contribui para ampliar a cidadania, democratizar a informação, melhorar a educação informal e o nível cultural dos receptores sobre temas diretamente relacionados às suas vidas. Ainda destaca que uma emissora comunitária possibilita a participação ativa e autônoma das pessoas residentes na localidade, bem como de representantes de movimentos sociais e de outras formas de organização coletiva na programação, nos processos de criação, no planejamento e na gestão. Essas ações – pontua a autora – balizam-se por princípios de comunicação libertadora, os quais têm como norte a ampliação das práticas de cidadania.

A experiência de rádio comunitária, na grande maioria, reflete a conquista do acesso aos meios de comunicação por parte de sujeitos organizados em movimentos populares ou em grupos comunitários. Peruzzo (1998b) caracteriza o acesso às tecnologias pelos movimentos populares como um forte indicador do direito à comunicação e dos processos de democratização social, especialmente porque a rádio comunitária amplia possibilidades de a ação local transformadora.

Assim, a prática da cidadania comunicativa se realiza através da ação comunicativa, que, apoiando-se nas formas e nos níveis diferenciados de participação e sociabilidade, impulsiona novas esferas de ação política. Elas abrangem desde a comunicação dos silenciados até os processos mais orgânicos e ampliados de participação como o de atuação na gestão de uma emissora radiofônica ou nas práticas comunicacionais desenvolvidas pelos agentes dos movimentos sociais.

Versão completa com: j.educom@gmail.com

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A 10 anos, o Fórum Social Mundial continua em movimento...


PORTO ALEGRE, MAIS DO QUE FESTEJO: UM BALANÇO IMPRESCINDÍVEL

De 25 a 29 de janeiro: o início de um ano pleno de fóruns altermundialistas.

Dez anos depois, a temática aposta no futuro: "Desafios e propostas para outro mundo possível". A grande Porto Alegre -cidade e zona metropolitana- volta a receber, como exatamente a uma década atrás, o Fórum Social Mundial (FSM), que viu nascer.

Apesar de que com um matiz muito mais brasileiro e regional do que em 2001, o evento a realizar-se de 25 a 29 de janeiro próximo na capital do Rio Grande do Sul, se propõe realizar um balanço desse espaço-processo altermundialista em marcha.

Milhares de participantes anteciparam sua inscrição. Dezenas de intelectuais e dirigentes de movimentos sociais, também. Entre eles, o português Boaventura de Souza Santos, David Harvey e Immanuel Wallerstein, dos Estados Unidos; Francisco Whitacker e João Pedro Stedile (MST), do Brasil; Diana Senghor, do Senegal; Samir Amin, do Egito; o francês Christophe Aguitton; por citar somente alguns nomes...

Vários chefes de Estado da região anteciparam sua presença: Lula, Evo Morales, Fernando Lugo e José Mujica.

O FSM se caracteriza pela pluralidade, não tendo viés governamental e nem partidário. É um espaço de debates e reflexões de entidades que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo. O FSM se propõe a facilitar a articulação em rede de entidades e movimentos engajados em ações concretas, partindo do local ao internacional.

Confira a programação completa e as novidades dos eventos pelo site: www.fsmecosol.org.br.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Artigo: Rádio Comunitária: cenários de resistências e possibilidades alternativas


Resumo

A proposta deste artigo é compreender em que medida a rádio comunitária Quilombo FM proporciona práticas sociais no bairro Restinga, região periférica de Porto Alegre, RS. Para alcançar tal objetivo, discutiremos o conceito de rádio comunitária, para em seguida, identificar a sua aplicabilidade na atividade desenvolvida pela emissora em estudo. Para isso, identificaremos no processo histórico da emissora, bem como na sua programação, veiculada semanalmente, e ainda, na formação dos comunicadores populares, as práticas de comunicação social que geram o desenvolvimento humano, a justiça social e a ampliação do exercício de cidadania. A análise evidencia, entre outros aspectos, que a rádio comunitária é um espaço de resistência e possibilidades. Resiste ao determinismo e possibilita a produção de experiências alternativas e de reconhecimento dos saberes locais.

Palavras‐chave
formação de comunicadores; rádio comunitária; Quilombo FM; cidadania.

Abstract
The purpose of this paper is to understand the extent to which community radio Quilombo FM provides social practices in the Restinga district, peripheral region of Porto Alegre, RS, Brazil. To achieve this goal, we discuss the concept of community radio and then identify its applicability in the activity developed by the broadcasting station under investigation. For that, we identify, in the historical process of this company as well as in its programming, weekly broadcasted, and in the formation of people engaged in popular media, media practices that generate human development, social justice and expansion of the exercise of citizenship. The analysis shows, among other things, that community radio is a space of resistance and possibilities. It resists determinism and enables the production of alternative experiences and acknowledgement of local recognition.

Key‐words
community communication; community radio; FM Quilombo; citizenship.

Versão completa em: Revista Elementa. Comunicação e Cultura. Sorocaba, v.1, n.2, jul/dez 2009.

Autores:

Joel F. Guindani
Cristovão D. Almeida
Gisele S. Neuls

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

DESTINO ACERTA CONTAS COM BORIS CASOY



"Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas
vassouras... dois lixeiros... o mais baixo da escala de trabalho!"
No dia seguinte Casoy pediu "profundas desculpas aos garis e aos
telespetadores da Band" pelo que escutaram em razão de um "vazamento de
audio" (na verdade, só ouviram isso porque ele disse...).



Na manhã desta 2ª feira (4), as dezenas de postagens no YouTube
referentes aos comentários que o apresentador Boris Casoy
inadvertidamente fez sobre os garis no Jornal da Band já haviam sido
vistas quase 1,2 milhão de vezes. A mais assistida estava na casa de 850 mil hits.

Se alguém ainda não sabe, o noticioso levou ao ar saudações de Ano Novo
de dois simpáticos garis: um senhor branco já com cabelos brancos e um
negro na faixa de 40 anos. Causaram ótima impressão, com seu ar digno e
uma alegria que não parecia forçada. Depois, enquanto eram exibidas vinhetas, ouviu-se a voz de Casoy no fundo, comentando com a equipe:

Fê-lo, entretanto, de maneira burocrática e pouco convincente, não
aparentando estar nem um pouco arrependido do desprezo aristocrático
que manifestou pelos trabalhadores humildes. As postagens relativas no
YouTube não somavam hoje nem 100 mil exibições.

Lembrei-me da rainha Maria Antonieta recomendando aos pobres que, se
não tinham pães, que comessem bolos. Perdeu a cabeça. Casoy teve mais
sorte, só quebrou a cara... Fiquei matutando sobre o destino e seus contrapesos. Às vezes a mesma pessoa é brindada com a sorte grande num momento e tira o azar grande
adiante. Ou vice-versa.

Casoy é elitista, racista, conservador e reacionário desde muito cedo. Um velho companheiro que com ele cursou Direito no Mackenzie me contou: aos 23 anos, Casoy era um dos líderes da ala jovem do Comando de Caça aos Comunistas, que tinha nessa faculdade um de seus focos principais. Mais: nos idos de 1964, Casoy chegou a ser citado em reportagem da revista Cruzeiro como membro destacado da juventude anticomunista.

A quartelada o beneficiou, claro: foi homem de imprensa de um ministro
do Governo Médici e do secretário da Agricultura de SP, Herbert Levy,
outra figurinha carimbada da direita.

Mas, nem tinha texto de qualidade superior, nem era uma figura
agradável na telinha, portanto estava direcionado para uma carreira
mediana no jornalismo, não fosse uma moeda que caiu em pé.

Isto aconteceu quando o comando do II Exército aproveitou uma frase
imprudente do cronista Lourenço Diaféria (sobre mendigos urinarem na
estátua de Caxias) para intervir na Folha de S. Paulo.

Os militares exigiram a destituição do diretor de redação Cláudio
Abramo (trotskista histórico), o afastamento de alguns profissionais
(demitidos ou realocados) e o abrandamento da linha editorial.

O proprietário Otávio Frias, que sempre se definiu como comerciante e
não jornalista, negociou. Servil, aceitou até substituir Abramo por um
homem de absoluta confiança do regime militar: Casoy, que editava o
Painel (coluna sobre os bastidores políticos), então um espaço dos mais
secundários no jornal.

Igualmente secundário era Casoy para os leitores da Folha e para os
próprios militantes/simpatizantes da esquerda. Suas posições
fascistóides eram ignoradas pela maioria.

Aí, como diretor de redação, calhou de ser ele o principal defensor do
jornal num episódio de reação à censura. Ou seja, sob palco iluminado, o lobo teve seu mome nto de cordeiro, o caçador de comunistas maquilou sua imagem para a de defensor da liberdade de expressão!

Sua carreira deslanchou. Depois de comandar a redação da Folha por sete
anos (saiu para dar lugar ao filhinho do patrão), voltou a editar a
coluna Painel, cuja importância crescera nesse interim. Finalmente, tornou-se conhecido pelo grande público como apresentador do telejornal Brasil do SBT, entre 1988 e 1997. Novamente os fados o bafejaram. Numa emissora que investia pouco em
jornalismo e não tinha reportagens para mostrar que, quantitativa e qualitativamente, chegassem nem perto das exibidas pela Rede Globo, o
jeito foi deixar crescer o espaço do apresentador.

Casoy pôde, assim, atuar como um âncora à moda dos EUA, fazendo
comentários catárticos sobre episódios de corrupção política (pri
ncipal mente) que eram concluídos com um ou outro de seus bordões
habituais: "Isto é uma vergonha!" é "É preciso passar o Brasil a
limpo!".

Ou seja, para telespectadores da classe "C" e "D", ele passou a
personificar o justiceiro que atirava a verdade na cara dos poderosos.

É um público que, em sua ingenuidade, valoriza desmesuradamente essa
justiça retórica e ilusória, sem perceber que, depois do desabafo,
continua tudo na mesma...

Assim, por novo golpe do destino, um comunicador azedo conquistou a
simpatia dos pobres e dos muito pobres, ao expressar seu inconformismo
impotente face às agruras que os atingem e eles são incapazes de
compreender em toda sua extensão.

É fácil canalizar seu justo ressentimento contra os políticos
desonestos. Tanto quanto é conveniente, para os poderosos, mante-los na
ignor ância de que o maior vilão em suas sofridas existências atende
pelo nome de capitalismo.

Servindo tão bem os interesses do sistema, Casoy atravessou as duas
últimas décadas como um aclamado populista televisivo de direita.

Só teve alguns percalços ao exagerar na dose contra o Governo Lula, mas
seus pés de barro continuaram, tanto quanto possível, ignorados pelo
grande público.

Agora, um acaso revelou ao Brasil inteiro que indivíduo insensível e
preconceituoso é, na verdade, Boris Casoy.

Alguns viram este episódio como um exemplo da justiça divina em ação.
Quem sabe?


Celso Lungaretti

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

E se o menino Jesus escolhesse nascer brasileiro em 2009?


E se o menino Jesus resolvesse nascer novamente entre nós, para sentir na própria pele os efeitos de seus sagrados ensinamentos? Se escolhesse nascer de uma família humilde, como aquela de Nazaré, que hoje estivesse seguindo, junto ao seu povo, numa longa caminhada? Neste caso, nos dias atuais, Ele escolheria nascer Guarani-Kaiowá!

Nasceria como parte de um povo a caminho, um povo em busca de justiça e de paz. Ele faria parte de uma coletividade que luta para viver, não numa “terra prometida”, e sim numa terra tradicional, lugar de morada dos espíritos ancestrais, onde se sepultaram os corpos de intermináveis gerações. Uma coletividade que, em seu modo de pensar, ironicamente mantém viva a crença na Terra sem Mal.

Ele seria, enfim, parte de um povo que entende seu território como espaço amplo de relações sociais e de convivência com diferentes culturas, mas que se vê, hoje, expulso desse mesmo território pela intolerância de quem acredita poder decretar qualquer espaço como propriedade privada, através da violência, da força bruta e da covardia.

Se o menino Jesus viesse, neste Natal, acalentar-se nos braços afetuosos de uma mulher Guarani, ele seria acolhido como alguém muito desejado. Antes mesmo que seu corpo se formasse no ventre materno Ele seria anunciado como boa notícia, nos sonhos de seus pais, tal como ocorre quando se gera uma nova vida entre os Guarani. E ele nasceria cercado por pessoas que, no afeto cotidiano, estabeleceriam os vínculos familiares e o parentesco com esse novo ser, esse verbo feito carne, com essa palavra-alma!

Seu nome seria, possivelmente, anunciado por um Pajé, um ancião que, entre os Guarani, conhece os segredos da vida e da morte e sabe pronunciar as “belas palavras”, aquelas que chamaríamos de “língua dos anjos” na tradição judaico-cristã. Seu nome seria um sinal do que, neste mundo, ele poderia realizar, das virtudes e dons que carregaria consigo e que, no viver, deveria alimentar e fazer crescer, tal com as viçosas roças de milho.

Se o menino Jesus decidisse ficar entre nós para ver se sua história seria diferente, em pleno século XXI, talvez ele encontrasse desafios bem semelhantes daqueles que enfrentou para semear sua palavra de amor, há mais de dois mil anos. Viveria em um acampamento à beira da estrada, como centenas de Guarani-Kaiowá que aguardam ainda a regularização de suas terras. Cresceria alimentado por tradições que preparam a pessoa para viver numa coletividade e não na individualidade. Seria uma criança entre as muitas que crescem cercadas de cuidados e de atenção, mesmo quando o alimento é escasso. Mas, com dois anos de vida, talvez Ele morresse prematuramente, vítima da falta de assistência e da negligência do Poder Público, tal como a pequena Tatirrara, em Kurussu Ambá, que morreu no dia 18 de dezembro por falta de assistência. Apesar dos contínuos apelos da comunidade para obter medicamentos, a Fundação Nacional de Saúde negou-se a prestar assistência porque a terra está “em litígio”.

Se Jesus sobrevivesse, aos 15 anos talvez decidisse participar, junto com sua comunidade, de uma retomada de terra tradicional – o tekohá, a “terra prometida” para viver plenamente o Nandê Recó, “o jeito de ser Guarani”. Neste caso, talvez Ele fosse mais um jovem assassinado brutalmente, tal como Osmair Fernandes, encontrado morto em uma escola, com indícios de espancamento e de tortura.

Vamos imaginar que, com sorte, o jovem Jesus escapasse a essas violências e tivesse a chance de estudar. Afinal, Ele nasceu para ser Mestre! Quem sabe, hoje escolhesse ser professor! Conhecendo um pouquinho da história de Jesus, vivida há mais de dois mil anos, podemos imaginar que ele também não se calaria diante das injustiças e, assim, utilizaria o “dom da palavra” para ensinar, para abrir os olhos, para aconselhar, para reivindicar que a justiça fosse a medida de toda a nossa vida. Neste caso, talvez seu destino fosse o mesmo que o de Genivaldo ou Rolindo Verá, os dois professores Guarani-Kaiowá seqüestrados e arrastados pelos cabelos por homens encapuzados, de dentro de sua comunidade.

E se não fosse, ainda, a hora de entregar o corpo em sacrifício, o Filho de Deus seguiria um pouco mais, junto a seu povo, cultivando a esperança cotidiana, tecendo a vida como quem trama fibras de taquara, que se transformam em cestos para transportar os frutos da vida e do trabalho. Ele viveria transitando entre um lugar e outro, em acampamentos provisórios e, junto com os seus, sofreria com as precárias condições para a sobrevivência, tal como qualquer povo que vive em exílio, impedido de ocupar definitivamente o seu próprio lugar.

Seria, como há dois mil anos, um homem de paz, desses que buscam construir a harmonia, que buscam falar a sua verdade calmamente, manifestando, pela argumentação, as razões de sua esperança, de suas lutas, de seus anseios. Ele aprenderia esse jeito de ser com os próprios Guarani, quando fosse, por exemplo, fazer uma reivindicação junto a qualquer órgão público ou quando fosse conversar com qualquer visitante, em sua aldeia.

Para os Guarani, essa forma de lutar só é rompida quando a espera se estende em demasia, e não há mais como resistir, se não retomando uma porção de terra. Nessas ocasiões, eles seguem em grupo, com suas famílias, seus animais de estimação, e os poucos objetos que possuem. Armam seus acampamentos e ali permanecem, pacificamente, à espera de providências legais. Quase sempre são recebidos com violências, são ameaçados com rajadas de tiros, são agredidos, espancados, impedidos de obter água, alimentos, medicamentos. Por isso, nascendo novamente hoje, penso que Jesus estaria entre eles e, possivelmente, se tornaria um Pajé, um líder religioso dedicado a curar doenças, a dizer as “belas palavras”, a aconselhar aqueles que vivem à sua volta.

Envelhecendo entre os Guarani-Kaiowá, Ele seria respeitado por adquirir a sabedoria dos anos – a idade é, para este povo, “o tempo que age sobre a pessoa” e que torna a alma mais aproximada da divindade. Como Pajé, talvez liderasse uma retomada, quando a vida num certo acampamento se mostrasse impossível. Ele, então, conduziria um grupo de famílias para uma terra tradicional, onde se pudessem ouvir melhor os conselhos dos espíritos ancestrais. E, nesse lugar, talvez seu grupo fosse vítima da ação criminosa de alguns jagunços de fazendeiros, armados e encapuzados. No embate, poderia Ele ser assassinado a tiros, como foi vítima a anciã e rezadora Xuretê Lopes, numa expulsão comandada por jagunços, em 2007.

Se Jesus Cristo decidisse nascer novamente entre nós, e se fizesse gente entre os Guarani-Kaiowá, correria o risco de ser, novamente, humilhado, torturado, assassinado, com a mesma crueldade daqueles tempos em que se crucificavam os homens que desafiavam as leis, e também aqueles que desafiavam o poder político e econômico para fazer cumprir as leis.

Por isso, neste Natal, é melhor pedirmos a Jesus que permaneça lá mesmo, à direita de Deus Pai, pelo menos por enquanto, pois a maioria dos homens e mulheres que vivem no Brasil contemporâneo ainda não entendeu o significado de suas lições de amor e de solidariedade. Mas acreditamos que um dia todos nós formaremos uma multidão que já não grita “soltem Barrabás”, mas que brada “Demarcação já”! Justiça para os Povos Indígenas!

*Iara Tatiana Bonin, doutora em Educação pela UFRGS e professora do PPG da Universidade Luterana do Brasil - Ulbra.