sábado, 29 de maio de 2010

Sem vice Serra não versa e nem prosa



Desde a infância reparei que os tucanos não voam alto e não revoam por muito tempo. Talvez pelo peso do bico ou por acharem as estrelas sempre distantes. Preferem o chão e, mesmo estando nele, na maioria das vezes são desajeitados, tropeçam e se enroscam. Nessas enroscadas, sem um vice definido, Serra continua ciscando no terreiro das possibilidades. Ou seja, sem um um vice Serra não versa e nem prosa. Já a Dilma tem vice e versa. Com a estrela no peito, voa no vento e na prosa do filho do Brasil. Será que essa revoada não está para tucanos?

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Rádios via internet são proibidas de transmitir os jogos da Copa


A medida imposta pela FIFA visa proteger a detentora oficial dos direitos de transmissão da Copa 2010, a Rede Globo

Mantendo a mesma medida de 2006, as rádios via internet não estão autorizadas a transmitirem os jogos da Copa do Mundo FIFA 2010, que será realizada na África do Sul a partir do mês que vem. A medida também vale para as estações AMs e FMs que possuem seus áudio ao vivo disponibilizados na internet.

A medida é imposta pela FIFA para proteger a detentora oficial dos direitos de transmissão da Copa 2010, a Rede Globo. A emissora carioca vai realizar transmissão com imagem dos jogos da Seleção Brasileira através de seu portal, conforme já anunciado pela própria rede. As demais rádios como Eldorado, Jovem Pan, Itatiaia, Bandeirantes, Gaúcha, Super Radio Tupi, Transamérica, entre outras, também possuem os direitos de transmissão, porém por vias terrestres.

Em resumo: essas estações realizarão a transmissão apenas por via terrestres, ou seja, via radiodifusão convencional. As afiliadas dessas redes nacionais deverão desligar seus sistemas de streaming durante as transmissões dos jogos da Copa, ou inserir outra programação na internet. Essa situação já foi constatada em 2006: as grandes marcas de São Paulo executaram outra grade na internet.
Também está proibida a transmissão para dispositivos móveis, como celulares smartphones.

Fonte: TudoRádio.com

terça-feira, 25 de maio de 2010

Compós 2010 - PUC-RIO



"Cada vez que o reino do humano me parece condenado ao peso, digo para mim mesmo que à maneira de Perseu (o herói mitológico que decepa a cabeça da Medusa porque voa com sandálias aladas. Para decepar a cabeça da Medusa sem se deixar petrificar) eu devo voar para outro espaço. Não se trata absolutamente de fuga para o sonho ou o irracional. Quero dizer que preciso mudar de ponto de observação, que preciso considerar o mundo sob uma outra ótica, outra lógica, outros meios de conhecimento e controle. As imagens de leveza que busco não devem, em contato com a realidade presente e futura, dissolver-se como sonhos..." Italo Calvino

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O fetiche de quantidade


Metas de produtividade e burocracia acadêmica diminuem o potencial de pesquisas científicas. A criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil.

A cada tanto tempo, volta-se a discutir como deve ser avaliado o trabalho dos professores. O grande número de pessoas envolvidas nos diversos níveis de ensino, assim como o de artigos e livros que materializam resultados de pesquisa, tem determinado uma preferência por medidas quantitativas.
Se estas podem trazer informações úteis como dado parcial para comparar resultados de escolas em vestibulares ou o desempenho médio de alunos em determinada matéria, sua aplicação como único critério de "produtividade" na pós-graduação vem gerando -a meu ver, pelo menos- distorções bastante sérias.
Não é meu intuito recusar, em princípio, a avaliação externa, que considero útil e necessária. Gostaria apenas de lembrar que a criação de conhecimento não pode ser medida somente pelo número de trabalhos escritos pelos pesquisadores, como é a tendência atual no Brasil. Tampouco me parece correta a fetichização da forma "artigo em revista" em detrimento de textos de maior fôlego, para cuja elaboração, às vezes, são necessários anos de trabalho paciente.
A mesma concepção tem conduzido ao encurtamento dos prazos para a defesa de dissertações e teses na área de humanas, com o que se torna difícil que exibam a qualidade de muitas das realizadas com mais vagar, que (também) por isso se tornaram referência nos campos respectivos.
O equívoco desse conjunto de posturas tornou-se, mais uma vez, sensível para mim ao ler dois livros que narram grandes aventuras do intelecto: "O Último Teorema de Fermat", de Simon Singh (ed. Record), e "O Homem Que Amava a China", de Simon Winchester (Companhia das Letras).
O leitor talvez objete que não se podem comparar as realizações de que tratam com o trabalho de pesquisadores iniciantes; lembro, porém, que os autores delas também começaram modestamente e que, se lhes tivessem sido impostas as condições que critico, provavelmente não teriam podido desenvolver as capacidades que lhes permitiram chegar até onde chegaram.

Everest da matemática
O teorema de Fermat desafiou os matemáticos por mais de três séculos, até ser demonstrado em 1994 pelo britânico Andrew Wiles. O livro de Singh narra a história do problema, cujo fascínio consiste em ser compreensível para qualquer ginasiano e, ao mesmo tempo, ter uma solução extremamente complexa. Em resumo, trata-se de uma variante do teorema de Pitágoras: "Em todo triângulo retângulo, a soma do quadrado dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa", ou, em linguagem matemática, a2²=b2²+c2².
Lendo sobre esta expressão na "Aritmética" de Diofante (século 3º), o francês Pierre de Fermat (1601-65) -cuja especialidade era a teoria dos números e que, junto com Pascal, determinou as leis da probabilidade- teve a curiosidade de saber se a relação valia para outras potências: x3³= y3³ + z3, x4 = y4 + z4 e assim por diante. Não conseguindo encontrar nenhum trio de números que satisfizesse as condições da equação, formulou o teorema que acabou levando seu nome -"Não existem soluções inteiras para ela, se o valor de n for maior que 2"- e anotou na página do livro: "Encontrei uma demonstração maravilhosa para esta proposição, mas esta margem é estreita demais para que eu a possa escrever aqui".
Após a morte de Fermat, seu filho publicou uma edição da obra grega com as observações do pai. Como o problema parecia simples, os matemáticos lançaram-se à tarefa de o resolver -e descobriram que era muitíssimo complicado.
Singh conta como inúmeros deles fracassaram ao longo dos 300 anos seguintes; os avanços foram lentíssimos, um conseguindo provar que o teorema era válido para a potência 3, outro (cem anos depois) para 5 etc. O enigma resistia a todas as tentativas de demonstração e acabou sendo conhecido como "o monte Everest da matemática". É quase certo que Fermat se equivocou ao pensar que dispunha da prova, que exige conceitos e técnicas muito mais complexos que os disponíveis na sua época.
Quem a descobriu foi Andrew Wiles, e a história de como o fez é um forte argumento a favor da posição que defendo. O professor de Princeton [universidade americana] precisou de sete anos de cálculos e teve de criar pontes entre ramos inteiramente diferentes da disciplina, numa epopeia intelectual que Singh descreve com grande habilidade e clareza. Não é o caso de descrever aqui os passos que o levaram à vitória; quero ressaltar somente que, não tendo de apresentar projetos nem relatórios, publicando pouquíssimo durante sete anos e se retirando do "circuito interminável de reuniões científicas", Wiles pôde concentrar-se com exclusividade no que estava fazendo.
Por exemplo, passou um ano inteiro revisando tudo o que já se tentara desde o século 18 e outro tanto para dominar certas ferramentas matemáticas com as quais tinha pouca familiaridade, mas indispensáveis para a estratégia que decidiu seguir. Questionado por Singh sobre seu método de trabalho, Wiles respondeu: "É necessário ter concentração total. Depois, você para. Então parece ocorrer uma espécie de relaxamento, durante o qual, aparentemente, o inconsciente assume o controle. É aí que surgem as ideias novas".
Este processo é bem conhecido e costumo recomendá-lo a meus orientandos: absorver o máximo de informações e deixá-las "flutuar" até que apareça algum padrão, ou uma ligação entre coisas que aparentemente nada têm a ver uma com a outra. Uma variante da livre associação, em suma.
Ora, se está correndo contra o relógio, como o estudante pode se permitir isso? A chance de ter o "estalo de Vieira" é reduzida; o mais provável é que se conforme com as ideias já estabelecidas, o que obviamente diminui o potencial de inovação do seu trabalho.
Renato Mezan

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Incomodados com Veja?


** Veja sempre pegou pesado, sempre misturou opinião com informação, sempre enfiou declarações descontextualizadas na boca dos entrevistados. Sempre aberta a "plantações", durante 20 anos ACM deitava e bordava, depois abriu-se indiscriminadamente aos "grampos", enturmando-se com quem tinha um saquinho de lama para jogar no desafeto.

** Veja sempre simplificou e distorceu. E quanto mais leve e saborosa pretendia ser, mais desqualificada. Mesmo quando a favor.

* Veja sempre praticou vendetas. A revista tem uma lista negra, própria e implacável, "não-pessoas" e "não-entidades" condenadas à inexistência. Através deste index Madame Torquemada assume-se como dona da verdade e senhora dos destinos. Sempre incensou os amiguinhos, sempre condenou ao ostracismo os que não faziam parte da curriola.

* Veja sempre produziu megalomanias em estado puro, forjadas pelo simples ato de colocar na cadeira do diretor de Redação profissionais sem o estofo adequado. O chamado estilo Veja não caiu do céu, foi sendo consolidado ao longo dos últimos 20 anos. Mario Sergio Conti, em Notícias do Planalto conta muita coisa sobre o patriarca e a gênese deste estilo. Admite que o praticou – era a escola, todos deveriam adotá-la por convicção ou mimetismo.

A diferença agora é que Veja pegou numa instituição-darling. E todos chiaram. Acabou a impunidade. Veja (e os que pretendem imitá-la) passarão a receber troco.

O documento apócrifo contra Veja que circulou nas duas ultimas semanas pelo Outlook de milhares de brasileiros – multiplicado pelo "agit-prop" do MST – é o retorno de um bumerangue lançado pelo próprio semanário com sua matéria abjeta.

Como avalia o procedimento adotado por Veja para incluí-lo na matéria?

José de Souza Martins – Considero-o um desrespeito à minha pessoa e ao meu trabalho. Em conseqüência, tenho recebido mensagens de insulto até de ex-alunos, espantados com a "minha mudança". Esse é um comportamento cujos efeitos danosos dificilmente serão consertados ao longo de minha vida pessoal e profissional. Quem leu a matéria de Veja, especialmente quem não me conhece, dificilmente lerá o artigo original e dificilmente levará em conta o conjunto de minha obra e o meu próprio caráter.

O que dizer da cobertura que a mídia faz do MST e da questão da reforma agrária?
José de Souza Martins – A mídia está desinformada. A questão agrária é muito complicada e os jornalistas parecem não ter tempo nem paciência para entendê-la, fazer as perguntas corretas e formar corretamente a opinião pública. Na cobertura que faz das ações do MST tenta apenas trazê-lo para o espetáculo da informação, sem se preocupar com as óbvias contradições do movimento e com os graves problemas sociais que o motivam e as graves injustiças que lhe deram vida. A mídia também cobre mal importantes inovações na ação do governo, que institucionaliza um amplo programa de intervenção na questão agrária, para atenuar ou suprimir os erros e defeitos da Lei de Terras de 1850, responsável pelos problemas que estamos vivendo, e na ação do Estado.

Confira mais em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/iq20052000.htm#questao01

terça-feira, 18 de maio de 2010

Rede AMLAT lança livros sobre metodologia e pesquisa em Comunicação na América Latina


No dia 27 de maio de 2010, no primeiro dia do III Seminário Latino-Americano de Metodologias Transformadoras em Comunicação, Educação e Cidadania, teremos o lançamento de dois livros Rede AMLAT. O evento será realizado no Auditório da Reitoria da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Campus da cidade de João Pessoa, Paraíba.
O livro “Metodologias Transformadoras: Tejiendo la red em comunicación, Educación, Ciudadania y integración en América Latina”, coordenado pelos pesquisadores Adrian Padilla (Universidad Nacional Experimental Simon Rodriguez, da Venezuela) e Alberto Efendy Maldonado (GP ProcessoCom/ PPGCOM/Unisinos, Brasil), foi editado pelo Fondo Editorial CEPAP, da Venezuela, no final de 2009. Trata-se de uma obra coletiva da Rede AMLAT que apresenta a diversidade teórica e metodológica das comunidades acadêmicas participantes deste projeto de integração latino-americana no âmbito da pesquisa em Comunicação.
O segundo livro, “Investigación de la Comunicación en América Latina”, coordenado pelos pesquisadores Alberto Pereira Valarezo (FACSO/UCE, Equador) e Alberto Efendy Maldonado (GP ProcessoCom/ PPGCOM/Unisinos, Brasil), é o resultado do encontro teórico-metodoló gico da Rede AMLAT, realizado em dezembro de 2009, em Quito-Equador, e foi editado pelo Centro Académico de Diseño y Producción Editorial FACSO- UCE, no início deste ano. O livro está dividido em três partes: I-“Teorías y Metodologías suscitadoras” ; II- “Investigación en comunicación digital”; e III “Investigación en comunicación alternativa y educomunicació n”.
A Rede AMLAT - Rede Temática ‘Comunicação, Cidadania, Educação e Integração na América Latina’ faz parte do Programa Sul-Americano de Apoio às atividades de Cooperação em Ciência e Tecnologia – PROSUL/CNPq.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Serra pode mais...


Serra pode mais.
Serra pode roubar mais.
Pode aumentar a inflação.
Pode perseguir os movimentos sociais.
Pode comprar o PiG.
Pode aumentar o desemprego.
Pode aumentar os juros.
Pode demitir servidor público.
Pode privatizar o Banco do Brasil, a CEF, o BNDES, a PETROBRAS.
Pode acabar com o PAC.
Pode acabar com o Bolsa Família.
Pode entregar o Pré-sal aos gringos.
Pode acabar com as universidades federais.
Pode jogar corrupção para debaixo do tapete.
Pode comprar deputados.
Pode pedir novos empréstimos ao FMI.
Pode recriar o CPMF.
Pode acabar com o Piso Nacional do Magistério.
Pode aderir à ALCA, ao invés do MERCOSUL.
Pode aumentar tributo.
Pode arrochar o salário do servidor público.
Pode colocar a PF para bater em grevista.
Pode abafar CPI.
Pode nomear FHC para o Ministério da Fazenda(este adora o FMI.
Pode nomear Daniel Dantas para o Ministério da Justiça(este é de uma honestidade imensurável).
Pode nomear Eduardo Azeredo para o Banco Central(este entende de caixa dois).
Pode nomear Sérgio Guerra para o Ministério do Planejamento(este entende muito bem de orçamento).
Pode nomear Roberto Arruda para o Ministério do Bem-Estar Social(panetone é o que não vai faltar.
Pode nomear Kátia Abreu para o Ministério da Reforma Agrária(esta entende de trabalho escravo).
E por aí vai.

Juciano Lacerda

sábado, 8 de maio de 2010

A história do boneco de sal,


A invés de crescer para fora, podemos crescer para dentro na medida em que criamos um centro onde as coisas se unificam e descobrimos como de tudo podemos aprender.

***

por Leonardo Boff*


Nos últimos tempos, temos dedicado nossas reflexões quase que exclusivamente às questões ambientais e aos desafios que as mudanças climáticas implicam para o futuro de nossa civilização, para a produção e o consumo.

Nem por isso devemos descurar os problemas cotidianos, a construção continuada de nossa identidade e a moldagem de nosso sentido de ser. É uma tarefa nunca terminada. Entre muitas, duas provocações estão sempre presentes e temos que dar conta delas: a aceitação dos próprios limites e a capacidade de desapegar-se.

Todos vivemos dentro de um arranjo existencial que, por sua própria natureza, é limitado em possibilidades e nos impõe barreiras de toda ordem, de lugar, de profissão, de inteligência, de saúde, de economia, de tempo. Há sempre um descompasso entre o desejo e sua realização. E, às vezes, nos sentimos impotentes face a dados que não podemos mudar, como a presença de um esquizofrênico com seus altos e baixos ou um doente terminal. Temos que nos resignar face a esta limitação intransferível. Nem por isso precisamos viver tristes ou impedidos de crescer. Há que ser criativamente resignados. A invés de crescer para fora, podemos crescer para dentro na medida em que criamos um centro onde as coisas se unificam e descobrimos como de tudo podemos aprender. Bem dizia a sabedoria oriental: “Se alguém sente profundamente o outro, este o perceberá mesmo que esteja a milhares de quilômetros de distância”. Se te modificares em teu centro, nascerá em ti uma fonte de luz que irradiará para os outros.

A outra tarefa da autorrealização é a capacidade de desapegar-se. O zen-budismo coloca como teste de maturidade pessoal e liberdade interior a capacidade de desapegar-se e de despedir-se. Se observamos bem, o desapego pertence à lógica da vida: despedimo-nos do ventre materno; em seguida, da meninice, da juventude, da escola, da casa paterna, de parentes e da pessoa amada. Na idade adulta, despedimo-nos de trabalhos, de profissões, do vigor do corpo e da lucidez da mente que irrefregavelmente vão se desgastando até despedirmo-nos da própria vida. Nestas despedidas, deixamos um pouco de nós mesmos para trás.

Qual é o sentido deste lento despedir-se do mundo? Mera fatalidade irreformável da lei universal da entropia? Essa dimensão é irrecusável. Mas será que ela não guarda um sentido existencial, a ser buscado pelo espírito? Se, fenomenologicamente, somos um projeto infinito e um vazio abissal que clama por plenitude, será que esse desapegar-se não significa criar as condições para que um Maior nos venha preencher? Não seria o Supremo Ser, feito de amor e bondade, que nos vai tirando tudo para que possamos ganhar tudo, no além vida, quando nossa busca finalmente descansará?

Ao perder, ganhamos e ao esvaziarmo-nos, ficamos plenos. Dizem por aí que esta foi a trajetória de Jesus, de Buda, de Francisco de Assis, de Gandhi, de Madre Teresa e de outros.

Talvez um história dos mestres espirituais antigos nos esclareça o sentido da perda que produz um ganho. “Era uma vez um boneco de sal. Após peregrinar por terras áridas, chegou a descobrir o mar que nunca vira antes e por isso não conseguia comprendê-lo. Perguntou o boneco de sal: “Quem és tu?” E o mar respondeu: “Eu sou o mar”. Tornou o boneco de sal: “Mas que é o mar?” E o mar respondeu: “Sou eu”. “Não entendo”, disse o boneco de sal. “Mas gostaria muito de compreender-te; como faço?” O mar simplesmente respondeu: “Toca-me”. Então o boneco de sal, timidamente, tocou o mar com a ponta dos dedos do pé. Percebeu que aquilo começou a ser compreensível. Mas logo se deu conta de que haviam desaparecido as pontas dos pés. “Ó mar, veja o que fizeste comigo”. E o mar respondeu: “Tu deste alguma coisa de ti e eu te dei compreensão; tens que te dares todo para me compreender todo”. E o boneco de sal começou a entrar lentamente mar adentro, devagar e solene, como quem vai fazer a coisa mais importante de sua vida. E na medida wm que ia entrando, ia também se diluindo e compreendendo cada vez mais o mar.

E o boneco continuava perguntando: “Que é o mar”. Até que uma onda o cobriu totalmente. Pôde ainda dizer, no último momento, antes de diluir-se no mar: “Sou eu”. Desapegou-se de tudo e ganhou tudo: o verdadeiro eu.

Por justiça e comunicação social: o Movimento Sem Terra na sociedade em midiatização


RESUMO

Trata da discussão sobre as ações comunicacionais do Movimento Sem Terra (MST) na relação com a perspectiva teórica da midiatização. Sob a modalidade metodológica da Pesquisa Participante, reflete sobre como o MST está lidando com os desafios originados pela crescente midiatização social, com vistas ao desenvolvimento de seu próprio campo midiático. Através de entrevistas com lideranças nacionais e militantes da base, identifica-se que o MST reconhece a comunicação como uma indispensável estratégia para suas ações e lutas na conquista da terra. Na batalha por justiça, a comunicação social é realidade não apenas na agenda ideológica do MST, mas também nos espaços em que se concretizam assentamentos, cooperativas, escolas, acampamentos e ocupações.

PALAVRAS-CHAVE: Comunicação; Movimentos Sociais; Movimento Sem Terra; Midiatização.

Versão completa com: j.educom@gmail.com

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Belo Monte: a volta triunfante da ditadura militar?


O governo Lula possui méritos inegáveis na questão social. Mas na questão ambiental é de uma inconsciência e de um atraso palmar. Ao analisar o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) temos a impressão de sermos devolvidos ao século XIX. É a mesma mentalidade que vê a natureza como mera reserva de recursos, base para alavancar projetos faraônicos, levados avante a ferro e fogo, dentro de um modelo de crescimento ultrapassado que favorece as grandes empresas à custa da depredação da natureza e da criação de muita pobreza.

Este modelo está sendo questionado no mundo inteiro por desestabilizar o planeta Terra como um todo e mesmo assim é assumido pelo PAC sem qualquer escrúpulo. A discussão com as populações afetadas e com a sociedade foi pífia. Impera a lógica autoritária; primeiro decide-se depois se convoca a audiência pública. Pois é exatamente isto que está ocorrendo com o projeto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, estado do Pará.

Tudo está sendo levado aos trambolhões, atropelando processos, ocultando o importante parecer 114/09 de dezembro de 2009, emitido pelo IBAMA (órgão que cuida das questões ambientais), contrário à construção da usina, e a opinião da maioria dos ambientalistas nacionais e internacionais que dizem ser este projeto um grave equívoco com conseqüências ambientais imprevisíveis.

O Ministério Público Federal que encaminhou processos de embargo, eventualmente levando a questão a foros internacionais, sofreu coação da Advocacia Geral da União (AGU), com o apoio público do presidente, de processar os procuradores e promotores destas ações por abuso de poder.

Esse projeto vem da ditadura militar dos anos 70. Sob pressão dos indígenas apoiados pelo cantor Sting em parceria com o cacique Raoni foi engavetado em 1989. Agora, com a licença prévia concedida no dia 1º de fevereiro, o projeto da ditadura pôde voltar triunfalmente, apresentado pelo governo como a maior obra do PAC.

Neste projeto tudo é megalômano: inundação de 51.600 hectares de floresta, com um espelho d’água de 516 km², desvio do rio com a construção de dois canais de 500m de largura e 30 km de comprimento, deixando 100 km de leito seco,  submergindo a parte mais bela do Xingu, a Volta Grande e um terço de Altamira, com um custo entre 17 e 30 bilhões de reais, desalojando cerca de 20 mil pessoas e atraindo para as obras cerca de 80 mil trabalhadores para produzir 11.233 MW de energia no tempo das cheias (4 meses) e somente 4 mil MW no resto do ano, para, por fim, transportá-la até 5 mil km de distância.

Esse gigantismo, típico de mentes tecnocráticas, beira a insensatez, pois, dada a crise ambiental global, todos recomendam obras menores, valorizando matrizes energéticas alternativas, baseadas na água, no vento, no sol e na biomassa. E tudo isso nós temos em abundância. Considerando as opiniões dos especialistas podemos dizer: a usina hidrelétrica de Monte Belo é tecnicamente desaconselhável, exageradamente cara, ecologicamente desastrosa, socialmente perversa, perturbadora da floresta amazônica e uma grave agressão ao sistema-Terra.

Este projeto se caracteriza pelo desrespeito às dezenas de etnias indígenas que lá vivem há milhares de anos e que sequer foram ouvidas; desrespeito à floresta amazônica cuja vocação não é produzir energia elétrica mas bens e serviços naturais de grande valor econômico; desrespeito aos técnicos do IBAMA e a outras autoridades científicas contrárias a esse empreendimento; desrespeito à consciência ecológica que devido às ameaças que pesam sobre o sistema da vida pedem extremo cuidado com as florestas; desrespeito ao Bem Comum da Terra e da Humanidade, a nova centralidade das políticas mundiais.

Se houvesse um Tribunal Mundial de Crimes contra a Terra, como está sendo projetado por um grupo altamente qualificado que estuda a reinvenção da ONU sob a coordenação de Miguel d’Escoto, ex-presidente da Assembléia (2008-2009), seguramente os promotores da hidrelétrica de Belo Monte estariam na mira deste tribunal.

Ainda há tempo de frear a construção desta monstruosidade, porque há alternativas melhores. Não queremos que se realizem as palavras do bispo Dom Erwin Kräutler, defensor dos indígenas e contra Belo Monte: "Lula entrará na história como o grande depredador da Amazônia e o coveiro dos povos indígenas e ribeirinhos do Xingu".

Leonardo Boff, teólogo, é representante e co-redator da Carta da Terra.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Entrevista concedida ao Instituo Humanitas Unisinos (IHU)


IHU On-Line - Você define o MST, enquanto instituição, como midiatizado ou em processo de midiatização? Por quê?
Joel f. Guindani – Achar que tudo está midiatizado é reduzir a complexidade e a riqueza dos processos sociais, especialmente a dimensão criativa, bem como a incompletude da vida humana. Por outro lado, seria outro erro desconsiderar as afetações midiáticas sobre nossa realidade. Identifiquei, nesta pesquisa, que a criação, gestão e funcionamento das experiências comunicacionais do MST também são expressões da criatividade de sujeitos que almejam, em alguma proporção, à construção da cidadania, e não, exclusivamente, resquícios da cultura midiática.

A midiatização está imbricada nisso, mas não é a medida de tudo. Na mesma direção, a natureza das ações comunicacionais do MST, na maioria das vezes, não tem a intenção de ser midiatizada e, em segundo, pela impossibilidade de acesso à técnica, como, por exemplo, as manifestações comunicacionais, como as marchas e ocupações realizadas secretamente na escuridão da noite. Se definirmos qualquer manifestação comunicacional como midiatizada, corremos o risco de simplificar a existência deste movimento social somente a partir da cultura tecnológica. O MST, muitas vezes, age midiaticamente, mas não somente sob esta perspectiva. Se o MST fosse um movimento apenas midiático, os pés de laranja da Cutrale não seriam derrubados.
Confira mais em

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=31090

segunda-feira, 29 de março de 2010

Sem Terra protestam contra fechamento de escolas itinerantes no RS


Cerca de 100 sem terra protestam neste momento em frente à Secretaria Estadual de Educação (SEC) em Porto Alegre contra o fechamento das escolas nos acampamentos - as chamadas escolas itinerantes. As famílias exigem a reabertura das escolas, fechadas em fevereiro do ano passado pelo governo estadual a partir de um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado com o Ministério Público Estadual (MPE).

O fechamento das escolas itinerantes afetou 280 crianças acampadas em todo o RS. Em São Gabriel, na Fronteira Oeste, 100 crianças acampadas estão sem ir à aula por falta de vagas. Em acampamentos de outras regiões do RS, os jovens precisam viajar quilômetros até as escolas nas cidades, tirando-lhes o direito de estudar em suas próprias comunidades, como prevê a lei. Além disso, muitas crianças mudam de escola mais de uma vez ao ano conforme o acampamento se desloca, prejudicando o seu processo de escolarização. Uma das características da escola itinerante é justamente a sua itinerância, acompanhando os acampamentos e garantindo que os filhos das famílias acampadas, que lutam por terra e melhores condições de vida, tenham educação e de qualidade.

EM SÃO GABRIEL, CRIANÇAS ASSENTADAS TAMBÉM NÃO TÊM AULA

Em São Gabriel, cerca de 300 crianças que já estão assentadas também estão sem aula. A prefeitura afirma que não tem vaga na rede municipal para todas as crianças. Também não há transporte e nem mesmo estradas, obrigando as crianças a caminharem até 8 quilômetros para chegar à estrada principal, onde passaria o ônibus escolar. As famílias já estão assentadas há mais de um ano em São Gabriel.

HISTÓRICO DO FECHAMENTO DAS ESCOLAS ITINERANTES

Em 28 de novembro de 2008, o governo do Estado assinou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Público Estadual (MPE) para fechar as escolas nos acampamentos sem terra. Segundo o TAC, até o dia 4 de março de 2009 deveriam ser desativadas as turmas, o que aconteceu em fevereiro daquele ano. As crianças deveriam ser matriculadas na rede
pública e ter transporte escolar. Caso não fosse cumprido, o governo do estado seria multado em um salário mínimo por dia de atraso. O MPE se comprometeu em fiscalizar o cumprimento do acordo pelo governo estadual.

Hoje, 100 crianças acampadas estão sem aula no RS e, as que têm aula, precisam viajar quilômetros para as escolas nas cidades, afetando sua a aprendizagem. O MPE não tomou nenhuma providência em relação a estes fatos, que desrespeitam o direito de acesso dos jovens à educação e de qualidade. O governo estadual, que na época garantiu que todas as crianças
teriam escola, também não tomou nenhuma providência.

As escolas itinerantes são reconhecidas pelo Conselho Estadual de Educação do RS, estão de acordo com a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) e o custo de sua manutenção, para o governo estadual, era baixo. As escolas continuam funcionando em outros estados do país com bons resultados. Isso mostra que elas são a melhor opção para as crianças sem terra acampadas.

domingo, 7 de março de 2010

RÁDIO TERRA LIVRE FM NO PERCURSO HISTÓRICO DA COMUNICAÇÃO POPULAR E COMUNITÁRIA

Resumo: Esta proposta de pesquisa tem por objetivo compreender a experiência de comunicação desenvolvida por agricultores Sem Terra localizados no Assentamento 25 de Maio, região oeste do estado de Santa Catarina. Trata-se de um estudo sobre a Rádio Terra Livre FM e demais ações de comunicação como cinema itinerante, festival de música e poesia, que nos auxiliam na compreensão tanto do percurso histórico, como na reflexão sobre o papel da comunicação popular e comunitária na contemporaneidade. Partimos da localização teórica desses conceitos, interligando-os com o percurso histórico, atividades culturais e com as formas de resistência que asseguram o funcionamento da emissora em estudo.

INTRODUÇÃO Esta pesquisa, busca compreender em que medida a Rádio Terra Livre FM e demais ações culturais realizadas no Assentamento 25 de Maio, constituem-se, na contemporaneidade, como integrantes do percurso histórico da comunicação popular e comunitária. A Rádio Terra Livre FM é um veículo de comunicação desenvolvido, desde o ano de 1996 e que congrega, no seu entorno, outras ações culturais como o Festival de Música e Poesia e Cinema Itinerante. Ações que, até o momento, representam indícios fundamentais para a compreensão da comunicação popular e comunitária como modo de expressão das classes populares na história, como na atualidade. Através da dinâmica metodológica da pesquisa participante, iniciada no mês de janeiro de 2010, adentramos no Assentamento 25 de Maio localizado no município de Abelardo Luz (SC) e entrevistamos ouvintes, locutores e lideranças do Movimento Sem Terra (MST), registramos a constituição histórica da rádio Terra Livre FM; desde o processo de sua fundação em 1996, como os períodos de interrupção na sua programação e ações de resistência dos comunicadores mediante ameaças criminais e perseguições políticas. Em parte do percurso investigativo já realizado, identificamos que as ações de comunicação popular e comunitária caracterizam-se como um enfrentamento ao projeto de dominação político-cultural capitalista, evidenciando-se assim, como espaços precursores e renovadores de um projeto popular de comunicação comunitária na contemporaneidade. Versão completa com: j.educom@gmail.com
Assista o vídeo.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A rádio comunitária como uma prática da cidadania comunicativa


O meio radiofônico, como um espaço discursivo e produtor de sentidos, é concebido como facilitador para a constituição dos processos de construção e práticas da cidadania comunicativa.

Por isso, o meio radiofônico deve ser entendido como um agente que apresenta certas condições aos atores sociais que dele se apropriam e não apenas como um instrumento ou aparelho transmissor. Toda tecnologia confere aos sujeitos a necessidade da aprendizagem, primeiramente para sua apropriação e, posteriormente, para o próprio processo de produção e funcionamento. Percebemos o rádio como uma estrutura/espaço de produção simbólica e tem um extraordinário poder de tornar acessível à informação, contrariando os que subestimam esse veículo como um mero instrumento técnico, delegando-lhe uma posição secundária diante dos processos comunicacionais.

Conforme Ferrareto (2001), o rádio como um gênero de comunicação possui linguagens e formatos que orientam suas rotinas produtivas. Para o autor, a emissão da mensagem radiofônica também coloca alguns condicionantes como: “[...] a capacidade auditiva do receptor, a linguagem radiofônica, a tecnologia de transmissão e recepção empregada, a fugacidade, os tipos de público e as formas de recepção” (FERRARETO, 2001, p. 25). Na contemporaneidade, o espaço radiofônico é o da interatividade e da ação participativa na programação (BARBEIRO, 2004). Além de sua praticidade tecnológica, o rádio continua ...] modernizado, refeito, revigorado. Ele já não é aquele de Getúlio Vargas nem é o palanque sonoro da identidade nacional; é mais variável, diverso, multifacetado, fragmentado e imprescindível. Um pouco distante de ser um congregador nacional, assume com força e propriedade o de agregador local, um porta-voz da cidade, um agente comunitário (BUCCI, 2004, p. 8).

O espaço radiofônico surge, trazendo em si promessas, discursos, instituindo ou reforçando formas de sociabilidades, projetos comunitários, competências individuais, representações sociais, enfim, um potencializador de habilidades para os processos de constituição das práticas da cidadania comunicativa.

Como lembra Cogo (2004), a radiofonia possui suas lógicas, “[...] ao mesmo tempo em que também esses atores e movimentos se apropriam e reelaboram tais lógicas, transformando a esfera das mídias em um espaço simbólico de conflitos, disputas e negociações”. (COGO, 2004, p. 43) Dessas inter-relações entre o meio radiofônico e os sujeitos que dele se apropriam, emergem novas competências, habilidades e fazeres entre ambos, especialmente quando focamos nossa observação na dimensão da prática da cidadania comunicativa.

Direcionando nosso olhar reflexivo especificamente para a rádio comunitária, iremos descobrir outras dimensões que realçam ainda mais as especificidades desse meio de comunicação. Assim, quando refletimos sobre rádio comunitário devemos considerar que [...] a característica principal do veículo continua sendo a da proximidade com a comunidade local. Se a televisão aberta tomou para si o papel que a Rádio Nacional desempenhava, se a globalização e a tecnologia trazem cada vez mais as informações mundiais, cabe justamente ao rádio, devido às suas características inerentes, promover as informações locais (HAUSSEN, 2004, p. 61).

Para Haussen (2004), uma emissora comunitária estrutura-se a partir de demandas locais, especialmente aquelas que dizem respeito às necessidades básicas como o acesso à informação, divulgação de assuntos que interessam primeiramente à comunidade; à luta dos sujeitos engajados no debate por melhorias políticas, sociais e culturais. Nessa direção, identificamos que a rádio comunitária torna-se também um espaço para que o cidadão participe das decisões sobre as políticas locais ou, até mesmo, sobre a necessidade de um tipo de comunicação plural e mais democrática.

Peruzzo (2007) enfatiza que uma rádio comunitária deve ser reconhecida pelo trabalho que desenvolve; ela transmite uma programação de interesse social vinculada à realidade local, não tem fins lucrativos, contribui para ampliar a cidadania, democratizar a informação, melhorar a educação informal e o nível cultural dos receptores sobre temas diretamente relacionados às suas vidas. Ainda destaca que uma emissora comunitária possibilita a participação ativa e autônoma das pessoas residentes na localidade, bem como de representantes de movimentos sociais e de outras formas de organização coletiva na programação, nos processos de criação, no planejamento e na gestão. Essas ações – pontua a autora – balizam-se por princípios de comunicação libertadora, os quais têm como norte a ampliação das práticas de cidadania.

A experiência de rádio comunitária, na grande maioria, reflete a conquista do acesso aos meios de comunicação por parte de sujeitos organizados em movimentos populares ou em grupos comunitários. Peruzzo (1998b) caracteriza o acesso às tecnologias pelos movimentos populares como um forte indicador do direito à comunicação e dos processos de democratização social, especialmente porque a rádio comunitária amplia possibilidades de a ação local transformadora.

Assim, a prática da cidadania comunicativa se realiza através da ação comunicativa, que, apoiando-se nas formas e nos níveis diferenciados de participação e sociabilidade, impulsiona novas esferas de ação política. Elas abrangem desde a comunicação dos silenciados até os processos mais orgânicos e ampliados de participação como o de atuação na gestão de uma emissora radiofônica ou nas práticas comunicacionais desenvolvidas pelos agentes dos movimentos sociais.

Versão completa com: j.educom@gmail.com

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A 10 anos, o Fórum Social Mundial continua em movimento...


PORTO ALEGRE, MAIS DO QUE FESTEJO: UM BALANÇO IMPRESCINDÍVEL

De 25 a 29 de janeiro: o início de um ano pleno de fóruns altermundialistas.

Dez anos depois, a temática aposta no futuro: "Desafios e propostas para outro mundo possível". A grande Porto Alegre -cidade e zona metropolitana- volta a receber, como exatamente a uma década atrás, o Fórum Social Mundial (FSM), que viu nascer.

Apesar de que com um matiz muito mais brasileiro e regional do que em 2001, o evento a realizar-se de 25 a 29 de janeiro próximo na capital do Rio Grande do Sul, se propõe realizar um balanço desse espaço-processo altermundialista em marcha.

Milhares de participantes anteciparam sua inscrição. Dezenas de intelectuais e dirigentes de movimentos sociais, também. Entre eles, o português Boaventura de Souza Santos, David Harvey e Immanuel Wallerstein, dos Estados Unidos; Francisco Whitacker e João Pedro Stedile (MST), do Brasil; Diana Senghor, do Senegal; Samir Amin, do Egito; o francês Christophe Aguitton; por citar somente alguns nomes...

Vários chefes de Estado da região anteciparam sua presença: Lula, Evo Morales, Fernando Lugo e José Mujica.

O FSM se caracteriza pela pluralidade, não tendo viés governamental e nem partidário. É um espaço de debates e reflexões de entidades que se opõem ao neoliberalismo e ao domínio do mundo pelo capital e por qualquer forma de imperialismo. O FSM se propõe a facilitar a articulação em rede de entidades e movimentos engajados em ações concretas, partindo do local ao internacional.

Confira a programação completa e as novidades dos eventos pelo site: www.fsmecosol.org.br.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Artigo: Rádio Comunitária: cenários de resistências e possibilidades alternativas


Resumo

A proposta deste artigo é compreender em que medida a rádio comunitária Quilombo FM proporciona práticas sociais no bairro Restinga, região periférica de Porto Alegre, RS. Para alcançar tal objetivo, discutiremos o conceito de rádio comunitária, para em seguida, identificar a sua aplicabilidade na atividade desenvolvida pela emissora em estudo. Para isso, identificaremos no processo histórico da emissora, bem como na sua programação, veiculada semanalmente, e ainda, na formação dos comunicadores populares, as práticas de comunicação social que geram o desenvolvimento humano, a justiça social e a ampliação do exercício de cidadania. A análise evidencia, entre outros aspectos, que a rádio comunitária é um espaço de resistência e possibilidades. Resiste ao determinismo e possibilita a produção de experiências alternativas e de reconhecimento dos saberes locais.

Palavras‐chave
formação de comunicadores; rádio comunitária; Quilombo FM; cidadania.

Abstract
The purpose of this paper is to understand the extent to which community radio Quilombo FM provides social practices in the Restinga district, peripheral region of Porto Alegre, RS, Brazil. To achieve this goal, we discuss the concept of community radio and then identify its applicability in the activity developed by the broadcasting station under investigation. For that, we identify, in the historical process of this company as well as in its programming, weekly broadcasted, and in the formation of people engaged in popular media, media practices that generate human development, social justice and expansion of the exercise of citizenship. The analysis shows, among other things, that community radio is a space of resistance and possibilities. It resists determinism and enables the production of alternative experiences and acknowledgement of local recognition.

Key‐words
community communication; community radio; FM Quilombo; citizenship.

Versão completa em: Revista Elementa. Comunicação e Cultura. Sorocaba, v.1, n.2, jul/dez 2009.

Autores:

Joel F. Guindani
Cristovão D. Almeida
Gisele S. Neuls

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

DESTINO ACERTA CONTAS COM BORIS CASOY



"Que merda! Dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas
vassouras... dois lixeiros... o mais baixo da escala de trabalho!"
No dia seguinte Casoy pediu "profundas desculpas aos garis e aos
telespetadores da Band" pelo que escutaram em razão de um "vazamento de
audio" (na verdade, só ouviram isso porque ele disse...).



Na manhã desta 2ª feira (4), as dezenas de postagens no YouTube
referentes aos comentários que o apresentador Boris Casoy
inadvertidamente fez sobre os garis no Jornal da Band já haviam sido
vistas quase 1,2 milhão de vezes. A mais assistida estava na casa de 850 mil hits.

Se alguém ainda não sabe, o noticioso levou ao ar saudações de Ano Novo
de dois simpáticos garis: um senhor branco já com cabelos brancos e um
negro na faixa de 40 anos. Causaram ótima impressão, com seu ar digno e
uma alegria que não parecia forçada. Depois, enquanto eram exibidas vinhetas, ouviu-se a voz de Casoy no fundo, comentando com a equipe:

Fê-lo, entretanto, de maneira burocrática e pouco convincente, não
aparentando estar nem um pouco arrependido do desprezo aristocrático
que manifestou pelos trabalhadores humildes. As postagens relativas no
YouTube não somavam hoje nem 100 mil exibições.

Lembrei-me da rainha Maria Antonieta recomendando aos pobres que, se
não tinham pães, que comessem bolos. Perdeu a cabeça. Casoy teve mais
sorte, só quebrou a cara... Fiquei matutando sobre o destino e seus contrapesos. Às vezes a mesma pessoa é brindada com a sorte grande num momento e tira o azar grande
adiante. Ou vice-versa.

Casoy é elitista, racista, conservador e reacionário desde muito cedo. Um velho companheiro que com ele cursou Direito no Mackenzie me contou: aos 23 anos, Casoy era um dos líderes da ala jovem do Comando de Caça aos Comunistas, que tinha nessa faculdade um de seus focos principais. Mais: nos idos de 1964, Casoy chegou a ser citado em reportagem da revista Cruzeiro como membro destacado da juventude anticomunista.

A quartelada o beneficiou, claro: foi homem de imprensa de um ministro
do Governo Médici e do secretário da Agricultura de SP, Herbert Levy,
outra figurinha carimbada da direita.

Mas, nem tinha texto de qualidade superior, nem era uma figura
agradável na telinha, portanto estava direcionado para uma carreira
mediana no jornalismo, não fosse uma moeda que caiu em pé.

Isto aconteceu quando o comando do II Exército aproveitou uma frase
imprudente do cronista Lourenço Diaféria (sobre mendigos urinarem na
estátua de Caxias) para intervir na Folha de S. Paulo.

Os militares exigiram a destituição do diretor de redação Cláudio
Abramo (trotskista histórico), o afastamento de alguns profissionais
(demitidos ou realocados) e o abrandamento da linha editorial.

O proprietário Otávio Frias, que sempre se definiu como comerciante e
não jornalista, negociou. Servil, aceitou até substituir Abramo por um
homem de absoluta confiança do regime militar: Casoy, que editava o
Painel (coluna sobre os bastidores políticos), então um espaço dos mais
secundários no jornal.

Igualmente secundário era Casoy para os leitores da Folha e para os
próprios militantes/simpatizantes da esquerda. Suas posições
fascistóides eram ignoradas pela maioria.

Aí, como diretor de redação, calhou de ser ele o principal defensor do
jornal num episódio de reação à censura. Ou seja, sob palco iluminado, o lobo teve seu mome nto de cordeiro, o caçador de comunistas maquilou sua imagem para a de defensor da liberdade de expressão!

Sua carreira deslanchou. Depois de comandar a redação da Folha por sete
anos (saiu para dar lugar ao filhinho do patrão), voltou a editar a
coluna Painel, cuja importância crescera nesse interim. Finalmente, tornou-se conhecido pelo grande público como apresentador do telejornal Brasil do SBT, entre 1988 e 1997. Novamente os fados o bafejaram. Numa emissora que investia pouco em
jornalismo e não tinha reportagens para mostrar que, quantitativa e qualitativamente, chegassem nem perto das exibidas pela Rede Globo, o
jeito foi deixar crescer o espaço do apresentador.

Casoy pôde, assim, atuar como um âncora à moda dos EUA, fazendo
comentários catárticos sobre episódios de corrupção política (pri
ncipal mente) que eram concluídos com um ou outro de seus bordões
habituais: "Isto é uma vergonha!" é "É preciso passar o Brasil a
limpo!".

Ou seja, para telespectadores da classe "C" e "D", ele passou a
personificar o justiceiro que atirava a verdade na cara dos poderosos.

É um público que, em sua ingenuidade, valoriza desmesuradamente essa
justiça retórica e ilusória, sem perceber que, depois do desabafo,
continua tudo na mesma...

Assim, por novo golpe do destino, um comunicador azedo conquistou a
simpatia dos pobres e dos muito pobres, ao expressar seu inconformismo
impotente face às agruras que os atingem e eles são incapazes de
compreender em toda sua extensão.

É fácil canalizar seu justo ressentimento contra os políticos
desonestos. Tanto quanto é conveniente, para os poderosos, mante-los na
ignor ância de que o maior vilão em suas sofridas existências atende
pelo nome de capitalismo.

Servindo tão bem os interesses do sistema, Casoy atravessou as duas
últimas décadas como um aclamado populista televisivo de direita.

Só teve alguns percalços ao exagerar na dose contra o Governo Lula, mas
seus pés de barro continuaram, tanto quanto possível, ignorados pelo
grande público.

Agora, um acaso revelou ao Brasil inteiro que indivíduo insensível e
preconceituoso é, na verdade, Boris Casoy.

Alguns viram este episódio como um exemplo da justiça divina em ação.
Quem sabe?


Celso Lungaretti

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

E se o menino Jesus escolhesse nascer brasileiro em 2009?


E se o menino Jesus resolvesse nascer novamente entre nós, para sentir na própria pele os efeitos de seus sagrados ensinamentos? Se escolhesse nascer de uma família humilde, como aquela de Nazaré, que hoje estivesse seguindo, junto ao seu povo, numa longa caminhada? Neste caso, nos dias atuais, Ele escolheria nascer Guarani-Kaiowá!

Nasceria como parte de um povo a caminho, um povo em busca de justiça e de paz. Ele faria parte de uma coletividade que luta para viver, não numa “terra prometida”, e sim numa terra tradicional, lugar de morada dos espíritos ancestrais, onde se sepultaram os corpos de intermináveis gerações. Uma coletividade que, em seu modo de pensar, ironicamente mantém viva a crença na Terra sem Mal.

Ele seria, enfim, parte de um povo que entende seu território como espaço amplo de relações sociais e de convivência com diferentes culturas, mas que se vê, hoje, expulso desse mesmo território pela intolerância de quem acredita poder decretar qualquer espaço como propriedade privada, através da violência, da força bruta e da covardia.

Se o menino Jesus viesse, neste Natal, acalentar-se nos braços afetuosos de uma mulher Guarani, ele seria acolhido como alguém muito desejado. Antes mesmo que seu corpo se formasse no ventre materno Ele seria anunciado como boa notícia, nos sonhos de seus pais, tal como ocorre quando se gera uma nova vida entre os Guarani. E ele nasceria cercado por pessoas que, no afeto cotidiano, estabeleceriam os vínculos familiares e o parentesco com esse novo ser, esse verbo feito carne, com essa palavra-alma!

Seu nome seria, possivelmente, anunciado por um Pajé, um ancião que, entre os Guarani, conhece os segredos da vida e da morte e sabe pronunciar as “belas palavras”, aquelas que chamaríamos de “língua dos anjos” na tradição judaico-cristã. Seu nome seria um sinal do que, neste mundo, ele poderia realizar, das virtudes e dons que carregaria consigo e que, no viver, deveria alimentar e fazer crescer, tal com as viçosas roças de milho.

Se o menino Jesus decidisse ficar entre nós para ver se sua história seria diferente, em pleno século XXI, talvez ele encontrasse desafios bem semelhantes daqueles que enfrentou para semear sua palavra de amor, há mais de dois mil anos. Viveria em um acampamento à beira da estrada, como centenas de Guarani-Kaiowá que aguardam ainda a regularização de suas terras. Cresceria alimentado por tradições que preparam a pessoa para viver numa coletividade e não na individualidade. Seria uma criança entre as muitas que crescem cercadas de cuidados e de atenção, mesmo quando o alimento é escasso. Mas, com dois anos de vida, talvez Ele morresse prematuramente, vítima da falta de assistência e da negligência do Poder Público, tal como a pequena Tatirrara, em Kurussu Ambá, que morreu no dia 18 de dezembro por falta de assistência. Apesar dos contínuos apelos da comunidade para obter medicamentos, a Fundação Nacional de Saúde negou-se a prestar assistência porque a terra está “em litígio”.

Se Jesus sobrevivesse, aos 15 anos talvez decidisse participar, junto com sua comunidade, de uma retomada de terra tradicional – o tekohá, a “terra prometida” para viver plenamente o Nandê Recó, “o jeito de ser Guarani”. Neste caso, talvez Ele fosse mais um jovem assassinado brutalmente, tal como Osmair Fernandes, encontrado morto em uma escola, com indícios de espancamento e de tortura.

Vamos imaginar que, com sorte, o jovem Jesus escapasse a essas violências e tivesse a chance de estudar. Afinal, Ele nasceu para ser Mestre! Quem sabe, hoje escolhesse ser professor! Conhecendo um pouquinho da história de Jesus, vivida há mais de dois mil anos, podemos imaginar que ele também não se calaria diante das injustiças e, assim, utilizaria o “dom da palavra” para ensinar, para abrir os olhos, para aconselhar, para reivindicar que a justiça fosse a medida de toda a nossa vida. Neste caso, talvez seu destino fosse o mesmo que o de Genivaldo ou Rolindo Verá, os dois professores Guarani-Kaiowá seqüestrados e arrastados pelos cabelos por homens encapuzados, de dentro de sua comunidade.

E se não fosse, ainda, a hora de entregar o corpo em sacrifício, o Filho de Deus seguiria um pouco mais, junto a seu povo, cultivando a esperança cotidiana, tecendo a vida como quem trama fibras de taquara, que se transformam em cestos para transportar os frutos da vida e do trabalho. Ele viveria transitando entre um lugar e outro, em acampamentos provisórios e, junto com os seus, sofreria com as precárias condições para a sobrevivência, tal como qualquer povo que vive em exílio, impedido de ocupar definitivamente o seu próprio lugar.

Seria, como há dois mil anos, um homem de paz, desses que buscam construir a harmonia, que buscam falar a sua verdade calmamente, manifestando, pela argumentação, as razões de sua esperança, de suas lutas, de seus anseios. Ele aprenderia esse jeito de ser com os próprios Guarani, quando fosse, por exemplo, fazer uma reivindicação junto a qualquer órgão público ou quando fosse conversar com qualquer visitante, em sua aldeia.

Para os Guarani, essa forma de lutar só é rompida quando a espera se estende em demasia, e não há mais como resistir, se não retomando uma porção de terra. Nessas ocasiões, eles seguem em grupo, com suas famílias, seus animais de estimação, e os poucos objetos que possuem. Armam seus acampamentos e ali permanecem, pacificamente, à espera de providências legais. Quase sempre são recebidos com violências, são ameaçados com rajadas de tiros, são agredidos, espancados, impedidos de obter água, alimentos, medicamentos. Por isso, nascendo novamente hoje, penso que Jesus estaria entre eles e, possivelmente, se tornaria um Pajé, um líder religioso dedicado a curar doenças, a dizer as “belas palavras”, a aconselhar aqueles que vivem à sua volta.

Envelhecendo entre os Guarani-Kaiowá, Ele seria respeitado por adquirir a sabedoria dos anos – a idade é, para este povo, “o tempo que age sobre a pessoa” e que torna a alma mais aproximada da divindade. Como Pajé, talvez liderasse uma retomada, quando a vida num certo acampamento se mostrasse impossível. Ele, então, conduziria um grupo de famílias para uma terra tradicional, onde se pudessem ouvir melhor os conselhos dos espíritos ancestrais. E, nesse lugar, talvez seu grupo fosse vítima da ação criminosa de alguns jagunços de fazendeiros, armados e encapuzados. No embate, poderia Ele ser assassinado a tiros, como foi vítima a anciã e rezadora Xuretê Lopes, numa expulsão comandada por jagunços, em 2007.

Se Jesus Cristo decidisse nascer novamente entre nós, e se fizesse gente entre os Guarani-Kaiowá, correria o risco de ser, novamente, humilhado, torturado, assassinado, com a mesma crueldade daqueles tempos em que se crucificavam os homens que desafiavam as leis, e também aqueles que desafiavam o poder político e econômico para fazer cumprir as leis.

Por isso, neste Natal, é melhor pedirmos a Jesus que permaneça lá mesmo, à direita de Deus Pai, pelo menos por enquanto, pois a maioria dos homens e mulheres que vivem no Brasil contemporâneo ainda não entendeu o significado de suas lições de amor e de solidariedade. Mas acreditamos que um dia todos nós formaremos uma multidão que já não grita “soltem Barrabás”, mas que brada “Demarcação já”! Justiça para os Povos Indígenas!

*Iara Tatiana Bonin, doutora em Educação pela UFRGS e professora do PPG da Universidade Luterana do Brasil - Ulbra.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Projeto de pesquisa: A cidadania comunicativa nos processos comunicacional e midiático do Movimento Sem Terra


Esta proposta de pesquisa estrutura-se no campo teórico da cidadania comunicativa (MATA, 2006) tendo os processos comunicacional e midiático do MST como universo empírico de investigação.
A utilização do conceito processos comunicacional e midiático neste projeto de pesquisa conjuga-se à perspectiva da comunicação enquanto processo, justamente para identificarmos neste universo o conceito de cidadania comunicativa enquanto estratégia, negociação, construção e devir (DAGNINO, 1994; MATA, 2006).
Investigar os processos comunicacional e midiático do MST implica compreendê-los não apenas como expressão da midiatização tecnológica, mas principalmente como modos de expressão da criatividade humana. Quer dizer, a criação, gestão e funcionamento das experiências comunicacionais e midiáticas deste movimento social são expressões da criatividade de sujeitos que almejam, em alguma proporção, à construção da cidadania, e não apenas resquícios da cultura midiatizada, dinamizada a partir de dispositivos tecnológicos como defende alguns autores .
Após conclusão da dissertação de mestrado, que esteve focada estritamente na área dos processos midiáticos, o presente projeto propõe avanços. Percebemos que contemplar apenas a comunicação midiatizada é compreender parte das ações comunicacionais protagonizadas por este movimento social.

Versão completa em: j.educom@gmail.com

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

As redes sociais e uma nova postura na comunicação


Há bem pouco tempo, as empresas estavam razoavelmente tranqüilas, sobretudo aquelas que sempre se valeram do seu poder econômico para subjugar os adversários e mesmo para cooptar a mídia que, no Brasil, com raras exceções, costuma ser refém de interesses políticos e comerciais

Na maioria das cidades brasileiras, a imprensa sempre esteve atrelada a alguns grupos, representantes tradicionais do poder político e econômico local (infelizmente, o caciquismo ainda não foi totalmente derrotado, muito pelo contrário). Nestas cidades, a impunidade, a falta de vigilância imperavam sem dó nem piedade. Particularmente no caso de emissoras de rádio e TV, o controle esteve e permanece em mãos destes grupos hegemônicos porque concessão do Estado, que sempre favoreceu os seus amigos e aliados.

Mas esta zona de conforto pouco a pouco vai se deteriorando, com a multiplicação de veículos jornalísticos e especialmente com a chegada da internet (o número de sites e portais cresceu vertiginosamente) e mais recentemente com a emergência do cidadão enquanto protagonista e produtor de conteúdos.

Os blogs, o twitter, as redes sociais em geral, viraram o mundo das organizações de cabeça para baixo e, parodiando o ditado, "nada ficou como antes no quartel de Abrantes". A certeza do domínio, do controle sobre as informações, se perdeu, levando o desespero para empresários inescrupulosos ou incompetentes e seus gestores de comunicação.

Se era fácil no passado calar jornais, emissoras de rádio e TV, que cediam facilmente às pressões, particularmente a econômica, o mesmo não se pode dizer agora das redes sociais, dos grupos organizados que defendem causas específicas (ambientais, direitos humanos, relações democráticas no trabalho, direitos do consumidor etc). Logo, a coisa definitivamente "começou a pegar" para as organizações e elas, desacostumadas ao diálogo e ao relacionamento franco, têm posto literalmente os pés pelas mãos, muitas vezes mais perdidas do que cachorro que cai do caminhão em dia de mudança.

Esta falta de habilidade ou competência das organizações em lidar com a nova realidade tem a ver com uma série de circunstâncias. Em primeiro lugar, a cultura (e consequentemente o processo de gestão) da maioria das organizações, apesar do discurso em contrário, continua sendo avessa ao debate, à divergência , enxergando opiniões contrárias como afrontas que devem ser, quando possível, combatidas a ferro e fogo. Essa postura vale tanto para os públicos internos quanto externos e, notadamente os funcionários, sentem na pele ("manda quem pode, obedece quem tem juízo", não é assim?) o autoritarismo de chefias e mesmo de profissionais de comunicação a seu serviço. Em segundo lugar, as organizações ainda não se deram conta (embora isso vá acontecer naturalmente com o desvendar desta nova realidade) de que o mundo ficou diferente e que será necessário, cada vez mais, rever os velhos conceitos. Já não dá para chamar a polícia para combater os grevistas, como as montadoras, por exemplo, faziam nos tempos da ditadura, não funciona mais o argumento da luta contra o comunismo para silenciar sindicalistas e profissionais de imprensa e muito menos é possível cooptar todos os adversários porque eles são cada vez mais numerosos (subjugá-los todos é economicamente inviável).

Em terceiro lugar, as redes sociais, a blogosfera, permitiram que vozes individuais se afirmassem e os cidadãos não dependem mais da mediação da imprensa para expressar suas opiniões, divergências e repúdio à postura de determinas empresas. Essa independência em relação à mídia estimulou o espírito crítico e, com o avanço da legislação que protege o consumidor, defende as minorias secularmente discriminadas, pune os crimes ambientais etc, as organizações já não podem apostar no velho e sereno "mar da tranqüilidade" em que viviam.

Finalmente, as novas tecnologias também propiciaram a formação de uma consciência coletiva, a mobilização de grupos descontentes, a divulgação rápida dos abusos cometidos contra mulheres, negros, crianças, pobres, consumidores e estabeleceu-se, quase num passe de mágica, uma solidariedade planetária que tem abraçado causas diversas e que ruidosamente impacta a imagem e a gestão das organizações que não andam fazendo direito a lição de casa.

Isso não quer dizer que corporações predadoras não continuem existindo, mas elas não têm conseguido agora, como sempre fizeram, permanecer escondidas e se sentem, quase sempre, desconfortáveis quando desnudadas diante das luzes dos holofotes da opinião pública.

A força e a pluralidade das redes sociais encorajam os debates, os confrontos, as divergências e as organizações que se empenhavam (e muitas vezes tinham sucesso) para impor as suas vozes e interesses agora se vêem literalmente em palpos de aranha, ou seja têm que negociar com os públicos de interesse (os "stakeholders") continuamente, muitas vezes em desvantagem.

A unanimidade deixou de ser um ideal a perseguir porque inalcançável e a postura a ser adotada, na gestão dos negócios e na forma de se relacionar com os públicos, teve que ser revista.

As redes sociais exigem uma nova cultura de relacionamento que não se confunde com o controle, a censura, auto-censura, a obsessão pelo controle e subjugação das vozes contrárias. O negócio agora é interagir, dialogar, ouvir o outro lado, o que, convenhamos, para algumas organizações significa alto risco porque, ao longo do tempo, sempre optaram pelo caminho mais curto e nefasto do autoritarismo, da arrogância, da grandiloqüência na comunicação.

A comunicação nesses novos tempos exige novos atributos como a ética, a transparência, o profissionalismo e o compromisso com a liberdade de expressão, a pluralidade de opiniões. Ouvir mais e falar menos, este é o novo lema da comunicação moderna.

Temos que reconhecer que este novo modelo ainda é praticado por um número reduzido de organizações e será preciso não apenas mudar a cultura e a postura das organizações, mas investir fortemente na formação dos novos comunicadores, ainda presos a valores ultrapassados.

Nos cursos de comunicação, ainda se cultuam processos como "limpeza de imagem", ainda se festeja o "marketing verde", ainda se acredita na honestidade dos "cases de sucesso" que povoam a literatura e os eventos em Comunicação Empresarial. Ainda temos (são a maioria, infelizmente) gestores de comunicação interna que vêem os funcionários ( e o sindicato) como adversários, sempre dispostos a "detonarem" as organizações e que, por falta de competência ou insegurança, abrigam-se em salas refrigeradas em vez de circularem com desenvoltura pelo chão de fábrica.

A Comunicação Empresarial precisa visitar mais as obras de Paulo Freire, mas continua saudando alguns gurus de plantão e algumas agências/assessorias que apregoam e refinam velhos processos de manipulação, de cooptação e de hipocrisia empresarial.

A Comunicação Empresarial precisa quebrar barreiras e definitivamente comprometer-se com o debate, a divergência, o diálogo e, para tanto, precisamos de comunicadores mais corajosos, que se sintam incomodados em legitimar culturas autoritárias e propostas de comunicação transgênicas, hegemônicas, socialmente irresponsáveis.

O futuro não será generoso com as organizações que insistirem em preservar esta cultura dinossáurica, apoiada em hierarquias rígidas, em ameaças contra aqueles que delas divergem interna e externamente, e que abrem espaço para chefias sem liderança autêntica.

As redes sociais, os cidadãos, os comunicadores de cabeça erguida (não os pelegos que servem organizações predadoras) construirão um novo espaço de relacionamento, uma nova proposta para a gestão dos negócios e da comunicação.

Provavelmente, muitas organizações não poderão assistir a este novo momento porque terão ficado no meio do caminho. O futuro se constrói agora, a cada dia. Sem uma comunicação democrática, as empresas não irão a lugar algum. Você quer apostar?

* Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa. Editor de 4 sites temáticos e de 4 revistas digitais de comunicação.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

III Simpósio Internacional de Cultura e Comunicação na América Latina


Em 29 , 30 e 31 de Março de 2010 o CELACC promoverá o III Simpósio internacional de Cultura e Comunicação na América Latina: Integrar para além do mercado.

Participe!


O III Simpósio Internacional de Cultura e Comunicação na América Latina: Integrar para além do mercado pretende reunir pesquisadores, docentes, estudantes e acadêmicos em geral, para um encontro de três dias com o objetivo de dar continuidade às discussões sobre as perspectivas de integração da América Latina no âmbito da cultura e comunicação. O CELACC (Centro de Estudos Latino Americanos sobre Cultura e Comunicação) já realizou dois simpósios na Universidade de São Paulo, ambos com financiamento do CNPq e FAPESP que debateram a comunicação e os movimentos sociais e a integração latino-americana do ponto de vista da cultura.

Com o avanço das discussões no contexto da geopolítica regional da integração do continente, o CELACC entende que é necessário um aprofundamento destas temáticas tendo em vista mudanças no cenário das indústrias culturais continentais, das políticas culturais na região e mesmo a maior visibilidade da temática da diversidade cultural, hoje reconhecida como um direito humano pela UNESCO. Assim, “integrar para além do mercado” significa integrar a espacialidade das idéias, das reflexões, dos conceitos e este é o principal objetivo deste III Simpósio que terá como atividade de lançamento o Seminário “Utopia e identidade cultural: a América Latina na obra de Darcy Ribeiro”.

Para a realização desse encontro o CELACC conta com a participação da Fundação Memorial da América Latina, da TAL - Television América Latina, do PROLAM/USP, dos núcleos de estudos CEDOM e Memphis da UNESP Ourinhos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Programa radiofônico causa pânico nos EUA


Orson Welles, ator norte-americano, transmite programa de rádio tão realista sobre uma invasão alienígena que aterrorizou a população
No dia 30 de outubro de 1938, um programa de rádio simulando uma invasão extraterrestre desencadeou pânico na costa leste dos Estados Unidos. O jovem ator e diretor Orson Welles (23 anos) produziu um programa de rádio tão autêntico que a maioria dos ouvintes acreditou tratar-se de uma aterrissagem real de extraterrestres nos Estados Unidos.

Parecia uma noite normal, naquele 30 de outubro de 1938, até que a rede de rádio CBS (Columbia Broadcasting System) interrompeu sua programação musical para noticiar uma suposta invasão de marcianos. A "notícia em edição extraordinária", na verdade, era o começo de uma peça de radioteatro, que não só ajudou a CBS a bater a emissora concorrente (NBC), como também desencadeou pânico em várias cidades norte-americanas. "A invasão dos marcianos" durou apenas uma hora, mas marcou definitivamente a história do rádio.

Dramatizando o livro de ficção científica "A Guerra dos Mundos", do escritor inglês Herbert George Wells, o programa relatou a chegada de centenas de marcianos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover's Mill, no Estado de Nova Jersey. Os méritos da genial adaptação, produção e direção da peça eram do então jovem e quase desconhecido ator e diretor de cinema norte-americano Orson Welles. O jornal Daily News resumiu na manchete do dia seguinte a reação ao programa: "Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos".
Pânico coletivo:

A dramatização, transmitida às vésperas do Halloween (dia das bruxas), em forma de programa jornalístico, tinha todas as características do radiojornalismo da época, às quais os ouvintes estavam acostumados. Reportagens externas, entrevistas com testemunhas que estariam vivenciando o acontecimento, opiniões de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comentaristas. Tudo dava a impressão de o fato estar sendo transmitido ao vivo. Era o 17º programa da série semanal de adaptações radiofônicas realizadas no Radioteatro Mercury por Orson Welles.

A CBS calculou, na época, que o programa foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais metade o sintonizou quando já havia começado, perdendo a introdução que informava tratar-se do radioteatro semanal. Pelo menos 1,2 milhão de pessoas acreditou ser um fato real. Desses, meio milhão teve certeza de que o perigo era iminente, entrando em pânico, sobrecarregando linhas telefônicas, com aglomerações nas ruas e congestionamentos causados por ouvintes apavorados tentando fugir do perigo.

O medo paralisou três cidades e houve pânico principalmente em localidades próximas a Nova Jersey, de onde a CBS emitia e onde Welles ambientou sua história. Houve fuga em massa e reações desesperadas de moradores também em Newark e Nova York. A peça radiofônica, de autoria de Howard Koch, com a colaboração de Paul Stewart e baseada na obra de Wells (1866-1946), ficou conhecida também como "rádio do pânico".

Precursor da ficção científica moderna:
O roteiro fora reescrito pelo próprio Welles (1915-1985). Na peça, ele fazia o papel de professor da Universidade de Princeton, que liderava a resistência à invasão marciana. Orson Welles combinou elementos específicos do rádio-teatro com os dos noticiários da época (a realidade convertida em relato).
Herbert George Wells, por sua vez, foi um dos precursores da literatura de ficção científica. O livro "A Guerra dos Mundos", publicado em 1898, era uma de suas obras mais conhecidas, tendo Londres como cenário. Ele escreveu num estilo bastante jornalístico e tecnologicamente atualizado para sua época. A transmissão de "A Guerra dos Mundos" foi também um alerta para o próprio meio de comunicação "rádio".

Ficou evidente que sua influência era tão forte a ponto de poder causar reações imprevisíveis dos ouvintes. A invasão dos marcianos não só tornou Orson Welles mundialmente famoso como é, segundo cientistas de comunicação, "o programa que mais marcou a história da mídia no século 20".

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Poesias da Elen. Comunicadora da Terra Livre FM


A alegria de seguir novos caminhos
sem medo de recomeçar,
lutando nunca estamos sozinhos
construindo nosso jeito de comunicar...

No povo buscamos inspiração
na música,uma forma de ensinar,
levando na mente e no coração
nosso jeito de se expressar...
a cada dia um ensinamento
para nunca desistir,
refletem a todo momento
a importância de prosseguir...

Reforçando no pensamento a verdade
que é imprescindível resistir,
para trazer a qualidade
que o nosso povo quer ouvir...
Se do sonho fizemos nossa busca
e da luta chegamos á vitória,
hoje, nada ofusca
o brilho de nossa história...

Unir forças para começar
e ter amor no coração,
é o primeiro passo para mostrar
o que é um meio popular de comunicação...
No começo a voz treme
mas agora,é A Avoz do Povo no Ar,
Rádio Terra Livre FM
é Cultura em primeiro lugar!!!

***

Piratas?São Eles!!!!

Piratas são eles
queusurpam direitos
garantidos na constituição,
usando falsos conceitos
monopolizando meios de comunicação...

Piratas são eles
que esqueceram de onde vieram
e nunca falam a verdade,
quando desmascarados se escondem
na sua famosa intelectualidade...

Piratas são eles
que se dizem cheios de educação
donos do poder,
acham que mandam na nação
tirando nosso diereito de escolher...

Piratas são eles
os donos do poder
que não aprenderam o que é comunicar,
saibam que nada pode deter
um meio 100% popular...

Fiquem os senhores com seus conceitos
e sua monopolização,
nós faremos valer nossos direitos
com uma verdadeira comunicação!!!!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Problematizando a teoria da midiatização



De maneira ampla, iniciamos a discussão pelos pressupostos teóricos da midiatização sem, no entanto, tomá-la como “a única forma estruturante das sociedades contemporâneas ou como matriz explicativa da totalidade de seu funcionamento (COGO, 2004, p.143).

A perspectiva da sociedade em vias de midiatização caracteriza-se pela inter-relação entre instituições, práticas sociais e meios de comunicação, não havendo, nesse sentido, a intenção de privilegiar apenas a dimensão tecnológica, pois tratamos, neste caso (projeto de pesquisa doutorado), além dos processos midiáticos, também sobre os processos comunicacionais.

Certamente que a evolução dos meios de comunicação vai configurando a nossa realidade, a qual também vai se caracterizando como uma sociedade midiatizada, onde as possibilidades de interação social entre indivíduos e instituições estariam de alguma forma, transpassados ou relacionados com algum suporte tecnológico de comunicação.

Com ressalvas, Braga (2006) destaca que ao observarmos as formas de sociabilidade atravessadas por suportes tecnológicos, devemos, antes de tudo, considerar os processos anteriores desenvolvidos pela dimensão criativa dos sujeitos envolvidos. Para ele a sociedade não apenas produz sua realidade através das interações sociais a que se entrega, mas igualmente produz os próprios processos interacionais que utiliza para elaborar a sua realidade – progressivamente e a partir de expectativas geradas nas construções sociais anteriores (BRAGA 2006, p. 145)

Mesmo reconhecendo que há realidades sociais onde a midiatização responsabiliza-se por todas as mediações sociais ou que regula a relação indivíduo com o mundo e com seus pares (PAIVA, 2005), cremos que a midiatização se caracteriza através de “diversos mecanismos, segundo os setores da prática social, produzindo, distintas conseqüências (VERÓN, 1997, p.9)”, ou seja, a sua incidência sobre a realidade não se dá de maneira uniforme e direta, mas sim de maneira complexa, transversal e relacional (FAUSTO-NETO, 2006).Esta inferência nos autoriza a pensar a midiatização relacionada com formas de comunicação que ainda se encontram implicadas em outras lógicas como a dimensão complexa e histórica da comunicação humana.

Por essa linha, o protagonismo midiático constrói-se tensionado pela exigência de um tipo de visibilidade pública atribuída pela lógica dos meios de comunicação, ao mesmo tempo em que os atores e movimentos sociais se apropriam e reelaboram tais lógicas, transformando a esfera das mídias em um espaço simbólico de conflitos, disputas e negociações e que se encontra, portanto, submetido permanentemente às tensões contraditórias dos interesses que circulam na sociedade (COGO, 2004, p.44).

Neste redesenho, a midiatização apresenta-se enquanto um campo de conjunções midiáticas e comunicacionais, onde tecnologias são apropriadas e re-significadas pelas dinâmicas sociais. Não objetamos a perspectiva de que as mídias se tornam matrizes configuradoras em que, “mais do que meros dispositivos técnicos passam a atuar como instâncias que atribuem visibilidade às ações de outros campos sociais e instituições (COGO, 2004, p.42).

Porém, é preciso perceber que o conceito de sociedade midiatização, comumente utilizado para se compreender as práticas sociais que se transformam em função dos meios (MATA s/d, p.4), apresenta-se permeada, ao mesmo tempo, por um processo antropológico e cultural que transforma e recria seus usos e sentidos.

Por este caminho, os processos comunicacional e midiático do MST, na cultura em midiatização, pretendem ser apreendidos como experiências comunicacionais de expressão da participação cidadã criadora e como exercício político e democrático de cidadãos que “históricamente han sido excluidos de las deciosiones, los debates y acesso a la produción de comunicación (PEREIRA, 2004 p. 138).

Importante destacar que mais do que as deficiências, até mesmo estruturais, em áreas como educação, saúde, moradia, trabalho e lazer, com as quais as camadas populares são obrigadas a conviver cotidianamente, a exclusão na produção social de informação e, logo, de comunicação destitui esses grupos do direito de decisão, participação e exercício da cidadania (SPENILLO, 2004). Desta maneira, a dimensão da sociabilidade pela qual se configura e reconfigura a cultura em midiatização, deve incluir, primordialmente, as problemáticas que advêm da luta social pelos direitos e construção da cidadania.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Pesquisar é partilhar


Para o quê serve o conhecimento social que a ciência acumula com a participação do meu trabalho? Para quem ou a quem, afinal, isso serve? Para que usos e em nome de quem? A minha pesquisa diz alguma coisa para o universo que pesquiso?Questões como essas têm ocupado boa parte da caminhada acadêmica de alguns pesquisadores. Manter uma postura atenta e crítica a respeito das condições sociais, políticas e culturais da produção científica, principalmente mediante as formas mercadológicas e hegemônicas de saber são, certamente, indispensáveis para quem deseja fazer ciência a partir de um processo dialógico, que gere comprometimento e partilha ao invés de dicotomias entre pesquisador e o mundo pesquisado.


Nessa perspectiva, o professor colombiano Antonio Brandão alerta para a necessidade de uma nova ciência capaz de pensar-se, de pensar o mundo social e de pensar as transformações sociais de uma maneira dialética, realizada a partir da presença, da posição e dos interesses das classes menos favorecidas. Por aí, afinam-se outros atributos como a reciprocidade entre sujeito e objeto e relação dialética entre teoria e prática, acúmulo e partilha do conhecimento.

No dia 29 de Junho de 2000, em aula inaugural no Collège de France, Pierre Bourdieu enfatizou que os pesquisadores/intelectuais realizam um papel importante se cumprirem duas condições: “não se fecharem em uma torre de marfim e inventar a maneira de divulgar suas verdades. A verdade, dizia Spinoza, não tem força por si só. Os intelectuais devem ser parte do movimento junto com os sindicatos ou grupos de pesquisa comprometidos com as associações que se esforçam pela crítica àquilo que oprime”. Ao finalizar, ele acrescentou: “O intelectual isolado, pode-se dizer, é o fim”.

No chão latino americano, a modalidade metodológica da pesquisa-participante tem sido uma porta de acesso à construção e à partilha do saber. A pesquisa-participante parte de um enfoque epistemológico no qual o conhecimento é considerado uma construção social permanente e não um ‘conhecimento’ que o ‘especialista’ extrai da realidade mediante procedimentos estatísticos, mas à margem da verdadeira voz e sentimento da população.

Vale ressaltar que na modalidade de pesquisa participante o papel do pesquisador não desaparece ou diminui, mas entra em articulação com outros sujeitos que também passam a contribuir com o processo de construção do conhecimento. Toda a pesquisa gera aprendizagem e toda aprendizagem, quando partilhada, gera outras mudanças. A pesquisa participante quer a interação múltipla de sujeitos: pesquisar é um ato de sujeitos, um movimento que reflete vida e que gera vida.

Este engajamento entre pesquisador e os sujeitos do universo investigado produz alternativas capazes de colocar o conhecimento, obtido através de procedimentos científicos, a serviço de alguma forma de ação social transformadora.

Paulo Freire, em entrevista reproduzida pelo Canal Futura, em setembro de 2009, lança-nos um questionamento: “Em tempos onde problemas sociais e ambientais se apresentam evidentes; onde movimentos sociais e continentes inteiros são atacados pela violência e pela fome, torna-se concebível uma pesquisa científica descomprometida com tal realidade?”

Afinal, de que lado estamos? Como diz Boaventura de Souza Santos, no seu livro “Renovar a Teoria Crítica e Reinventar a Emancipação Social”, esta é uma questão que possivelmente será respondida na medida em que expandirmos nossa razão e nosso coração. Eis ai o desafio não apenas para pesquisadores, mas acima de tudo para seres humanos ousados e sensíveis aos problemas de seu tempo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Artigo: Tensões e convergências entre proposta teórica e prática radiofônica: Um estudo sobre a Rádio Terra Livre FM


Resumo

Este trabalho objetiva compreender a relação entre proposições teóricas sobre rádio elaboradas pelo Setor de comunicação do Movimento Sem Terra (MST) e a prática radiofônica desenvolvida em um assentamento. A partir da teoria dos campos de Pierre Bourdieu e Adriano Rodrigues, visa-se aprofundar o debate sobre as tensões e convergências deflagradas entre o documento “As Rádios do MST” e a “Rádio Terra Livre FM”. Parte-se da hipótese de que o campo radiofônico está estruturado sob lógicas da comunicação comunitária e da sociedade em midiatização enquanto que o campo documental está fundamentado em uma racionalidade mais política que comunicacional. Está hipótese é identificada a partir de um questionamento deflagrado no ambiente de negociação entre os sujeitos em cena: fazer rádio para os projetos do MST e/ou para os desejos da comunidade?

Palavras-chave: Rádio, MST, teoria dos campos, midiatização

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

RS: Sem terra é morto em ação de despejo da Brigada Militar


O trabalhador rural Elton Brum da Silva, de 44 anos, foi alvejado com uma espingarda pelas costas durante despejo realizado pela Brigada Militar em São Gabriel (RS). Outras duas pessoas ainda estariam feridas à bala, mas não corriam risco de morte.

Porto Alegre (RS) - O trabalhador rural Elton Brum da Silva, de 44 anos, foi morto pelas costas durante ação de despejo da Brigada Militar ocorrida na manhã desta sexta-feira (21), em São Gabriel (RS). Elton estava entre as famílias sem terra que ocupavam a Fazenda Southall há mais de uma semana, reinvindicando a desapropriação do restante da área para a reforma agrária.

As condições em que ocorreu a morte do trabalhador ainda não estavam esclarecidas até o final de sexta-feira. No entanto, já foi confirmado que Elton foi atingido pelas costas por uma espingarda calibre 12. Na revista feita nos sem terra pela Brigada Militar, somente foram encontrados instrumentos de trabalho, como foices e facões. O que para Nina Tonin, coordenadora do Movimento Sem Terra (MST), reforça que Elton foi morto na ação dos policiais.

"O Elton, que foi assassinado brutalmente pelas costas pela Brigada Militar, ele poderia ser um dos assentados nessas áreas que o governo federal desapropriou [a fazenda Antoniazzi] e que o juiz de Santana do Livramento cancelou a sua imissão de posse. Por isso, o Elton paga com a sua própria vida a inoperância, a falta de vontade política dos governos em cumprirem aquilo que prometeram", diz.

Segundo Nina, cerca de 50 pessoas foram feridas pela Brigada Militar entre mordidas de cachorro, ferimentos por cacetete, inclusive na cabeça, e dedos e braços machucados. No entanto, nem todas foram levadas ao hospital. Ainda haveria outras duas pessoas feridas à bala, mas não corriam risco de morte.

O cerco da Brigada às famílias iniciou ainda durante a madrugada. As primeiras notícias da morte de Elton começaram a ser divulgadas em torno das 9h. Segundo informações de funcionários da Santa Casa de São Gabriel, o sem terra foi levado por policiais e já chegou sem vida ao hospital. As demais famílias permaneceram isoladas na área até pouco depois do meio dia.

Os policiais ainda prenderam 18 sem terra que foram identificados como líderes. Eles foram soltos depois de prestarem depoimento na delegacia. Para Nina, o assassinato do sem terra é o crime final de uma série de outros crimes.

"A morte desse trabalhador não se trata apenas de uma punição a quem atirou. Isso precisa ser feito, no mínimo. O que nós estamos falando é de uma violência sistemática que é a não-realização da reforma agrária. Agora ocorreu a última violência, que é a eliminação física daqueles que lutam pelos seus direitos", argumenta.

O velório de Elton inicia neste sábado, em São Gabriel. Ele deve ser sepultado em Canguçu, na região Sul, onde o trabalhador estava acampado e sua família vivia.