“Todas as coisas não comunicadas, que não foram nunca confiadas a ninguém, deixam de existir, pois não há para elas lugar permanente na realidade” Vera S. Telles.
sábado, 16 de abril de 2011
RÁDIO VOZ DA TERRA NO AR
Aos que ainda lutam, eis a conquista e recompensa!!! Improvisada no recanto da casa de um comunicador, a Rádio Voz da Terra FM é a mais nova emissora que rompe com as cercas da comunicação. Localizada na região centro oeste de Santa Catarina, a Voz da Terra ainda opera esporádicamente. Segundo um dos comunicadores, a programação deverá ser diária, principalmente quando a sede estiver construída. Ao lado de sua irmã Terra Livre FM, a Voz da Terra é a segunda rádio localizada em assentamentos do MST no estado catarinense.
terça-feira, 12 de abril de 2011
O sensacionalismo é a alma do negócio
O sensacionalismo é marca inevitável do jornalismo brasileiro? Não gostaríamos de generalizar, mas a resposta não se cala na quase totalidade dos veículos comerciais impressos, radiofônicos ou televisivos. É nesses espaços onde o fazer jornalístico exprime seus conteúdos ágeis e brandos, quase sempre motivados pela filosofia capitalista da “maior produção no menor tempo”. Esse jornalismo de revoada - produzido a partir de flanagens rápidas sob os fatos – também nos instiga a alguns questionamentos sobre a própria atuação do jornalista, que imerso na roda alucinante da produção quantitativa, muitas vezes obriga-se a sensacionalizar fatos em troca da estabilidade profissional. A grande parte das ações desse jornalista é comandada pelas regras comerciais do campo publicitário, onde a produção, a compra e a venda se aliam a um vasto público receptor que reclama, consome e descarta cada vez mais num tempo menor.
Para onde vai a possível alma do “fazer jornalismo-jornalista”? Eduardo Galeano em “O livro dos abraços” nos oferece boas pistas para esta questão:
“Me faz bem recordar uma lição de dignidade da arte que recebi há anos, num teatro de Assis, na Itália. Helena e eu tínhamos ido ver um espetáculo de pantomima, e não havia ninguém. Ela e eu éramos os únicos espectadores. Quando a luz se apagou, juntaram-se a nós o lanterninha e a mulher da bilheteria. E, no entanto, os atores, mais numerosos que o público, trabalharam naquela noite como se estivessem vivendo a glória de uma estréia com lotação esgotada. Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha. Nossos aplausos ressoaram na solidão da sala. Nós aplaudimos até esfolar as mãos.”
Não há dúvida de que o sensacionalismo constitui boa parte da prática jornalístico-comercial contemporânea. Quer dizer, o fazer jornalístico é quase sempre precedido pela necessidade de sedução em massa. A estética, e não mais a política ou a cultura, é a isca utilizada para atrair e fisgar o receptor. O “caso do Realengo”, no Rio de Janeiro é prova atualizada dessa prática jornalística. Primeiro a notícia – nada mais do que necessária -, mas depois as estratégias de retransmissão e reconstrução do fato a partir das táticas sensacionalistas. Por exemplo, no segundo dia de cobertura do acontecimento, a pergunta mais utilizada pelos repórteres foi: “Como mãe de uma das vítimas, qual é o seu sentimento”? Ou seja, nada de espaço para o debate político, sociológico e até mesmo econômico da questão. Para esse fazer jornalístico, os contextos do crime dizem respeito apenas ao fato, ao sujeito, ao número de balas utilizadas. Quer dizer, nada de conteúdo que articule tais particularidades a uma estrutura de sociedade, que exige dos sujeitos a competitividade, a distinção, o poder a partir da aniquilação do outro.
Esse jornalismo da sedução, do “fazer por fazer”, que condiz com o hábito de produzir em troca de audiência ou do patrocínio também compromete o seu precioso argumento: "a imprensa apenas reproduz fatos; apenas os relata de maneira imparcial.” Quer dizer, prova contrária a esse mandamento do jornalismo factual é a onda sensacionalista que permeia o chamado novo jornalismo, o da emoção contínua, das construções descontextualizadas e das reportagens requentadas - como foi a do jornal gaúcho Zero Hora sobre o MST -; das produções com a câmera escondida ou através de outras desonestas habilidades.
O sensacionalismo toma conta?
Não dá para duvidar. O jornalismo comercial, valendo-se do sensacionalismo produz o preconceito, a desinformação e a intensificação do sofrimento, tanto das pessoas que serviram de matéria-prima à produção, como para os diversos receptores que a consumiram. Assim, quem sofre mais com o sensacionalismo, o jornalismo, o receptor ou suas vítimas mediatizadas?
Todos pagam o preço?
Em grande medida, o jornalismo sensacionalista induz a prática de novos crimes, pois ao hiper-escancarar a face do criminoso e do episódio, também banaliza os fenômenos da criminalidade. Aparecer no Jornal Nacional por mais de 15 minutos – ou até mesmo em edições inteiras - é para poucos, alegram-se traficantes e demais políticos, que fazem desse jornalismo espaço de projeção e de reconhecimento social. O jornalismo sensacionalista tem contribuído com o agravamento das situações relacionadas ao mundo do crime?
Dentre inúmeros exemplos, o caso de suicídio da atriz Leila Lopes é revelador. A fatalidade foi publicada até pelo avesso. Ou seja, até mesmo as versões de o que seria dela sem ter cometido suicídio foram matéria para uma edição inteira do “Mais você”, apresentado em alto astral por Ana Maria Braga. Outras reportagens sobre o caso Leila Lopes foram a fundo, explicitando as fotos do frasco de veneno, o nome do veneno, a carta de despedida por ela deixada, as simulações do ato, dentre inúmeras outras encenações ou dramaturgias possíveis.
Seria possível pensar o jornalismo como uma prática imune à (re)produção desses horríveis episódios? Será apenas idealização a possibilidade de um jornalismo que informe sem agredir ninguém? Cremos que essa possibilidade se afasta enquanto o jornalismo for simplesmente uma prática guiada pela guerra por audiência ou pela lei das vendagens ilimitadas. Vale à pena subsumir uma possível ética existente em detrimento da conquista de audiências massivas e lucrativas?
Não poderíamos deixar de fora o jornalismo comercial que produz o sensacionalismo ao se pretender popular, como aquele que incorpora o hábito da voz alternativa e, tal como manda o figurino, atua como representante do povo, autodenominando-se o pai dos desvalidos. Mas nos bastidores se enriquece nas costas da desgraça e do sofrimento alheio. É assim que o jornalismo sensacionalista vende a sua verdade ilusória, especialmente quando se diz a salvação ou o porta-voz de todos os problemas sociais.
No Rio Grande do Sul, a última feita do Jornal Zero Hora, do Grupo RBS/Globo, foi emitir juízos sobre a questão da Reforma agrária. Trata-se de uma reportagem dominical, muito bem colorida e ilustrada, mas superficial em conteúdo. Sua base argumentativa é branda, apresentando dados quantitativos questionáveis, regionalizados e descontextualizados de outros fatores que compõe o complexo e histórico problema Agrário. Tal reportagem, embalada pela agenda do Abril Vermelho, é a prova de um jornalismo nada criativo; que sobrevive de pautas requentadas; que sensacionaliza vidas marginalizadas e que de alma ou de sensibilidade pouco possui ou nada entende.
Co-autoria de Éderson Silva - Graduando em Jornalismo na Unisinos
quarta-feira, 6 de abril de 2011
I Fórum da Igualdade
A CUT-RS e a Coordenação dos Movimentos Sociais do Rio Grande do Sul realizarão o “I Fórum da Igualdade: uma outra comunicação é necessária” nos dias 11 e 12 de abril de 2011, no Auditório Dante Barone da Assembléia Legislativa/RS. Nesta primeira edição, o Fórum da Igualdade debaterá a democratização dos meios de comunicação e o marco regulatório. O evento tem como objetivo ser um contraponto ao Fórum da Liberdade.
A democratização da comunicação, a liberdade de expressão e o fim do monopólio dos meios de comunicação no Brasil serão temas a serem debatidos pelos painelistas. Além disso, serão discutidos temas como o marco regulatório para o setor de comunicação no país e a implantação dos Conselhos Estaduais de Comunicação.
Para a CUT-RS é urgente a atualização da legislação para assegurar a liberdade de expressão e a democratização do direito à comunicação. Segundo o presidente da CUT, Celso Woyciechowski, “Estamos muito atrasados nos aspectos da comunicação no Brasil. Temos uma legislação que data de 1962. Desde então, ocorreram profundas transformações no campo das comunicações no Brasil e no mundo e não podemos mais permanecer assim”.
A partir de uma nova legislação, construiremos um projeto de lei que tramite pelo Congresso Nacional, seguindo todas as instâncias legítimas e democráticas que a sociedade brasileira acata e respeita. Regulação representa desenvolvimento, informação, igualdade a diversidade regional e respeito às minorias. Para tanto, a Central Única dos Trabalhadores está convidando painelistas e debatedores de renome nacional e internacional para contribuir com o debate proposto nesta primeira edição.
Confira a programação:
http://www.forumdaigualdade.org.br/
domingo, 3 de abril de 2011
A cidadania comunicativa na escola: um estudo do projeto Alunos em Rede - Mídias Escolares
Resumo: Este artigo objetiva problematizar/compreender as formas de construção e exercício da cidadania comunicativa a partir das práticas comunicacionais, sobretudo a de rádio-escola. Trata-se de um estudo empírico sobre o projeto “Alunos em Rede - Mídias Escolares” - protagonizado por alunos(as) do ensino fundamental do município de Porto Alegre (RS). A partir da reflexão sobre a relação comunicação, cidadania e educação, o estudo identificou que a noção cidadania comunicativa é constituída na medida em que se concretizam e se ampliam as possibilidades de acesso, de apropriação e dos usos das tecnologias, de maneira especial a radiofônica; da mediação dos poderes municipal legislativo e executivo; das dinâmicas pedagógicas subsidiadas pela colaboração solidária entre professores e alunos(as) e dos espaços de produção e de veiculação dos conteúdos produzidos.
PALAVRAS-CHAVE: Cidadania; Comunicação; Educação;
Artigo submetido ao Intercom regional Sul
Autores: Joel F. Guindani, Franciele Zarpelon e Valdir J. Morigi
Versão completa com: j.educom@gmail.com
quinta-feira, 31 de março de 2011
Diante da concentração dos meios de comunicação, o que nos resta? Meter a mão
Sábado (2/4) será um dia muito especial. Neste dia iniciará a construção (literalmente!) de uma rádio comunitária. Essa rádio, que ainda não foi batizada, será no Morro Santa Teresa. Queremos te convidar para ajudar nesta empreitada. Primeiramente, carregaremos os materiais da rua para o terreno, em seguida começaremos a construir uma ideia de rádio comunitária. Para a segunda parte, contaremos com o auxílio de Beliza Lopes (comunicadora da Rádio Comunitária de Encruzilhada do Sul) e Doraci Engel (comunicador da Rádio Ipanema Comunitária), ambos ligados à Abraço (Associação Brasileira das Rádios Comunitárias).
Atenção: se chover o mutirão será cancelado e o debate iniciará às 14h. Pedimos que confirmem presença.
terça-feira, 29 de março de 2011
Ciro Marcondes Filho ministra aula inaugural na Unisinos
Com um discurso objetivo e ideias construídas a partir de esclarecimentos conceituais sobre a comunicação, o professor Doutor Ciro Marcondes Filho, da Universidade de São Paulo, escrutinou o ano letivo do Programa de Pós-Graduação em Ciências da comunicação da Unisinos com a tese de que "a comunicação não é uma ciência aplicada". Seus argumentos explanaram que a pesquisa em comunicação realizada no Brasil é pouco reconhecida no exterior. Isso, para Marcondes Filho, deve-se a dois fatores. O primeiro é o desconhecimento dos pesquisadores estrangeiros sobre os trabalhos desenvolvidos em nosso país e o segundo é a falta de originalidade investigativa dos pesquisadores brasileiros.
A falta de originalidade amarra-se, em seu discursos, na incapacidade da pesquisa em comunicação brasileira romper com os paradigmas consagrados, sobretudo, com os métodos investigativos, que segundo ele, contaminam a natureza fenomenológica do objeto. "Devemos seguir o objeto, observá-lo e registrá-lo, dizer o que você viu, sem a preocupação de dar respostas ou de dizer o que se deve ou não se deve no modo de abordá-lo". Destaca.
Ao final, Marcondes revela seu guia investigativo fenomenológico: o Metaporos. Não sendo um método, como o usualmente construído e utilizado pelas ciências tradicionais, o Metaporos está aberto às definições do movimento objetal e não se incumbe de síntese ou de uma narrativa que cerque ou impossibilite a sua livre manifestação e apreensão.
Essas afirmações provocaram um rico debate de consensos e de insatisfações. Como o campo da comunicação terá legitimidade social e científica se ele inutilizar a matriz histórico-geradora e organizativa de todas as ciências que é o método?
A falta de originalidade amarra-se, em seu discursos, na incapacidade da pesquisa em comunicação brasileira romper com os paradigmas consagrados, sobretudo, com os métodos investigativos, que segundo ele, contaminam a natureza fenomenológica do objeto. "Devemos seguir o objeto, observá-lo e registrá-lo, dizer o que você viu, sem a preocupação de dar respostas ou de dizer o que se deve ou não se deve no modo de abordá-lo". Destaca.
Ao final, Marcondes revela seu guia investigativo fenomenológico: o Metaporos. Não sendo um método, como o usualmente construído e utilizado pelas ciências tradicionais, o Metaporos está aberto às definições do movimento objetal e não se incumbe de síntese ou de uma narrativa que cerque ou impossibilite a sua livre manifestação e apreensão.
Essas afirmações provocaram um rico debate de consensos e de insatisfações. Como o campo da comunicação terá legitimidade social e científica se ele inutilizar a matriz histórico-geradora e organizativa de todas as ciências que é o método?
quinta-feira, 17 de março de 2011
OS PROCESSOS COMUNICACIONAIS NA CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA DOS QUILOMBOLAS
Resumo: O artigo parte do princípio de que os processos comunicacionais são fundamentais para a construção e ampliação da cidadania como forma de emancipação social. Identifica os processos comunicacionais na comunidade quilombola, analisando como eles realizam a construção da cidadania junto às manifestações socioculturais locais. O estudo foi realizado em 2010 na comunidade rural Campina de Pedra, localizada no município de Poconé, Mato Grosso. Através de entrevistas e de observação participante com os remanescentes do quilombo foi possível perceber os processos comunicacionais na constituição da cidadania enquanto práticas da vida coletiva, que envolvem o reconhecimento da identidade do grupo, a participação comunitária, o fortalecimento de diversas experiências que preservam as tradições e que fazem avançar ações emancipadoras mediante as novas formas de regulação social.
Palavras-Chave: Cidadania 1. Processos comunicacionais 2. Quilombola 3.
Por: Joel F. Guindani; Cristóvão D. de Almeida; Valdir J. Morigi
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
E O RÁDIO? Novos horizontes midiáticos
E o rádio? Novos horizonte midiáticos, organizado pelos professores Luiz Artur Ferraretto e Luciano Klöckner, é mais um fruto do interesse manifesto do grupo pelos estudos sobre esse meio de comunicação fascinante. Há contribuições de 11 estados, mais o Distrito Federal, que abrangem um conjunto de assuntos agrupados neste volume em oito seções temáticas: a primeira é sobre história e a última trata do futuro, das tendências, da geração digital. No meio desses dois vértices estão artigos sobre ensino, emissoras e ouvintes, criatividade sonora, publicidade e programas.
São relatos de pesquisa ou textos motivados pela própria publicação, sempre conduzidos por um ponto em comum: o entendimento da característica plural do rádio. E, também da sua onipresença que o faz mais atual do que nunca, como atesta a sua versão na web e nos celulares. Como diz Castells (2007:395), “a tecnologia de comunicação móvel tem poderosos efeitos sociais ao generalizar e aprofundar a lógica em rede que define a experiência humana do nosso tempo”. Este livro comprova a peculiaridade do rádio que, democrático na sua origem, influencia gerações de pesquisadores que contribuem para o progresso do próprio campo científico.
Doris Fagundes Haussen (PUCRS) e Sonia Virgínia Moreira (UERJ)
quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011
A história da Comunicação popular e alternativa do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
Resumo: O artigo resgata o trajeto histórico da comunicação popular e alternativa desenvolvida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ao longo dos seus 27 anos. Propõe formas de abordagem sobre o fenômeno, identificando suas possibilidades mediante as novas ofensivas da comunicação hegemônica. Primeiro, realiza-se uma delimitação teórica sobre a noção de comunicação popular e alternativa, relacionando-a como ação contra-hegemônica. Num segundo momento, articula-se tal conceituação com a experiência comunicacional protagonizada pelo Setor de Comunicação do MST, que é plural e não se limita apenas a algumas mídias - como rádios, jornais, revista, audiovisual, editora, portal na internet, Twiter -, mas, também, com outras experiências, como: simbólico-icônica, gritos de ordem, celebrações culturais, marchas, festivais de música e poesia, assessoria de imprensa, cursos formativos e documentos sobre comunicação. O estudo foi realizado nos meses de Janeiro e Fevereiro de 2011 e contou com análise documental, pesquisa participante, entrevistas com lideranças, agricultores assentados e militantes.
Palavras-chave: História; Comunicação popular e alternativa; Movimento Sem Terra; Hegemonia.
Co-autoria de Solange Engelmann
Versão completa em: j.educom@gmail.com
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
“Sem comunicação não há democracia”

Entrevista com a Filósofa Marilena Chauí
Tatiana Merlino – Em 2006, a senhora ficou profundamente descontente com a postura da mídia durante o período eleitoral, e agora a imprensa teve novamente um comportamento bem complicado. A gente queria que a senhora começasse falando sobre a sua avaliação da cobertura da mídia nas eleições presidenciais.
Marilena Chauí – Eu diria que não houve cobertura. Houve a produção midiática da campanha eleitoral e das eleições. Cobertura significaria mostrar o que efetivamente estava se passando no primeiro turno com todos os candidatos e no segundo turno com os dois candidatos que restaram. E não foi isso que aconteceu. A candidata Dilma não teve em instante nenhum a sua campanha coberta pela mídia. Ela teve a sua campanha ou ignorada, ou deformada ou criminalizada. E do lado do candidato Serra, também não houve uma cobertura da campanha dele. Porque se tivesse havido uma cobertura da campanha dele, o que a mídia deveria ter mostrado? Essa coisa extraordinária que eu nunca vi acontecer em lugar nenhum de um candidato se autodestruir. Primeiro, o vice, ele não conseguiu escolher o vice e depois deu uma escolha que não foi feita por ele e insignificante. Em seguida, ele começa a campanha descendo a lenha no governo Lula, o qual, entretanto, numa pesquisa de opinião, tinha tido quase 90% de ótimo e bom, e, provavelmente, as pessoas que acompanhavam o programa do Serra, aquelas que opinam, devem ter dito que não era uma boa, aí ele passou a dizer que ia fazer o que o Lula estava fazendo, mas melhor. Aí, quando ele começou a explicar o que era melhor, começou a fazer propostas completamente alucinadas, foi uma alucinação que ele propôs. Bom, mas quando nós chegamos nesse ponto, você tem a entrada em cena do segundo turno. Ora, na hora que entra em cena o segundo turno, o que é que vem como uma avalanche? O famoso dossiê. O dossiê que foi atribuído ao PT, disseram que a Dilma tinha mandado fazer, que foi o famoso dossiê que o Aécio fez. Foi o dossiê que invadiu todos os planos da vida do Serra, e mais, atingiu diretamente a filha dele, que eles tinham dito que o PT que tinha violado a menina, a Verônica. Foi uma completa produção do Aécio, em Minas. Ora, isto que destruiria qualquer candidatura em qualquer tempo e lugar, o servilismo da mídia foi tal, que isto, ou não apareceu, ou apareceu em pequenas notícias e de uma maneira tão confusa que ninguém sabia do que se tratava. E, depois, quando entrou em cena o aborto, em primeiro lugar a mídia nunca disse que quem introduziu o tema do aborto foi a Marina, que fez um discurso conservador dos evangélicos para os evangélicos, introduziu os temas religiosos e o tema do aborto. Como ela não entra no segundo turno, o Serra se apropria desse tema. Ora, uma imprensa que está defendendo a liberdade de expressão, que está defendendo o espaço público, que está defendendo a opinião pública, está defendendo a liberdade de pensamento, como é que ela pode embarcar na entrada em cena como tema eleitoral de uma questão que pertence ao espaço privado, e é uma questão de religião, que é o aborto? A plena cobertura que foi dada a isso, contradizendo o próprio significado daquilo que a imprensa deveria de entender por coisa pública, espaço público, opinião pública e liberdade de pensamento e de expressão!
Bom, então, depois, no caso da Dilma, é mais interessante do que a não cobertura da campanha do Serra, porque no caso da Dilma, tentou-se primeiro a guerrilheira. É a guerrilheira, a guerrilheira... E eu tinha dito a uns amigos, este é um caminho perigoso. É um caminho perigoso, porque, em termos de história pessoal, é muito paralela à história do próprio Serra. Se você pega o comício dos cem mil, no Rio [de Janeiro], em 1961, o discurso mais radical do comício não foi o do Jango, não foi o do Brizola, não foi o do Julião, foi o do Serra como presidente da UNE. Ele fez o discurso afirmando... o núcleo do discurso do Serra em 1961 foi revolução armada. Então, eu dizia [é] um perigo, porque se eles enveredarem pela figura da Dilma guerrilheira, eles vão ter que dizer que o Serra pregou em 1961 para cem mil brasileiros a revolução armada.
Tatiana Merlino – A senhora acha que foi diferente essa cobertura da cobertura de 2006 e da cobertura de 1989? O que há de diferente?
M.C. – Eu acho que a diferença não é de natureza, a diferença é de grau. Eu diria que, desta vez, tudo aquilo que se realizou num grau um pouco menor, um pouco mais prudente, desta vez, o véu caiu de uma vez só e atingiu o grau máximo de procedimento. Então, eu diria, não é diferente se eu considerar o modo de proceder, mas é diferente se eu considerar o grau em que isto foi feito.
Versão completa em:
http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=624JDB008
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
A arriscada missão de informar

A vida de Herzog é referência para a democracia e sua morte uma evidência dos limites e consequências da profissão.
O jornalismo é uma atividade onde o profissional deixa muito de si para a produção de boas matérias. Ou seja, trata-se de uma área que exige, incessantemente, certa doação e entrega deste profissional. Em nome do direito e do dever de informar a sociedade sobre os graves casos de homicídios, exploração sexual, tráfico de drogas, pedofilia e demais temas que constituem a realidade cotidiana, o jornalista investigativo, usando de sua especialidade – e, por vezes, auto-suficiência – ultrapassa alguns limites e cria certo abismo entre a profissão e a sua condição humana.
A rotina de um repórter é desafiadora, pois envolve investigação, escrita e reescrita, entrevistas, coleta de dados e a divulgação daquilo que ocorre em lugares de alto risco. Assim, o "tornar público" é apenas uma parte da atividade. Esta rotina, que envolve o contato com a dura realidade brasileira, choca-se com a condição humana do jornalista. Munidos de câmeras e demais equipamentos, muitos repórteres ocupam territórios dominados por poderes cruéis e ditatoriais, de traficantes de drogas, políticos corruptos e outros criminosos que em nada prezam pela vida. Para fazer esta mediação ou para cumprirem a missão de informar, alguns jornalistas doam-se em prol da causa social e em defesa dos mais fracos. Nesta atitude, colocam sobre si responsabilidades que excedem a tarefa jornalística.
Este comportamento ilustra-se no ditado: "O médico pensa que é Deus, o jornalista tem certeza." Nesta incessante busca por certeza, cremos que o profissional não pode colocar o jornalismo à frente de sua vida. O repórter deve seguir princípios guiados por uma reflexão do trabalho jornalístico, que é a incansável perseguição pela objetividade dos fatos. Mas, em contrapartida, existe sua condição humana, das relações familiares e do desejo de voltar para casa no final do dia.
O cinema e o jornalismo de investigação
O jornalista investigativo percorre a linha tênue do possível e da via perigosa. Tomado pelo direito de informar, muitas vezes vai ao encontro do abismo, como presa rumo ao predador. Seu conhecimento é pequeno em comparação ao arsenal vigilante mantido pelas organizações criminosas. Perdem-se grandes repórteres em nome do direito de informar sem medida. Não são poucos os exemplos de jornalistas agredidos, espancados, torturados e assassinados. São vidas jogadas fora para atender ambições individuais, políticas e corporativas, que muitas vezes destoam do interesse público ou da sua condição humana. O gaúcho Tim Lopes foi uma figura marcante nesta fascinante atividade de informar/denunciar os males e desvios sociais. Arriscou-se ao ir a uma favela para realizar reportagens sobre o tráfico de drogas e a exploração sexual de menores: foi descoberto e cruelmente morto.
Esta tragédia colocou em pauta a seguinte questão: até aonde o jornalista deve se arriscar para informar?
No filme Tropa de Elite II, O Inimigo Agora é Outro, de José Padilha, Clara, personagem da atriz Tainá Muller, está fazendo uma matéria investigativa sobre o tráfico. Mas, como o próprio Capitão Nascimento diz "Jornalista é curioso", ela vai além na sua apuração e se mete no covil dos bandidos. Lá, descobre informações bombásticas do envolvimento da polícia e de políticos com o crime organizado. No filme, a repórter liga para outro jornalista na redação contando tudo o que viu. É alertada para sair imediatamente, pois os bandidos poderiam chegar a qualquer momento. Tomada pela emoção da descoberta, a repórter tem sua curiosidade cada vez mais atiçada quando depara com as provas da ligação da milícia com o tráfico de armas. Na sequência da cena, eles são descobertos e agredidos pelos bandidos; as máquinas fotográficas e gravadores são apreendidos. Os jornalistas são executados a sangue frio e seus corpos são queimados para que nenhum vestígio permaneça. O filme faz um bom paralelo entre a ação do jornalista em querer fazer uma grande matéria a todo custo e um jornalismo que valoriza a informação bombástica em detrimento do jornalista.
Informar é sinônimo de se arriscar?
Este exemplo cinematográfico, mas possível e real para quem exerce a missão de informar, é uma das diversas armadilhas da profissão, que não dignifica a categoria e só coloca o profissional em uma situação de medo e sofrimento, diante de um mundo que não pode ser concertado unicamente por ele.
No livro Arte de Fazer um Jornal Diário, Ricardo Noblat faz duras críticas a esse tipo de comportamento de arriscar a vida por uma informação: "Tim Lopes se expôs ao risco de morrer porque quis, porque foi autorizado por seus chefes a fazê-lo e também porque grassa cada vez mais por toda parte um tipo de jornalismo que não distingue o que interessa ao público do que é de interesse público", afirma. E continua Noblat: "Há ainda na tragédia protagonizada por Tim Lopes um outro aspecto que cobra uma reflexão urgente e profunda dos jornalistas e dos seus patrões. Porque sou jornalista e porque vivemos em uma democracia estou liberado para valer-me de qualquer recurso que assegure à sociedade o direito de tudo saber", diz. Porém, o escritor colombiano Gabriel García Márquez descreveu como uma paixão insaciável pelo jornalismo que leva jornalistas a cometerem estes atos.
Ricardo Noblat ainda reflete sobre as práticas jornalísticas que priorizam a informação ao invés do jornalista. Estas práticas degradam a profissão e põe em risco a vida de muitos profissionais que agem muitas vezes sem o livre arbítrio e viram reféns da inconsequência, do crime e da ação informativa desmedida.
Por outro lado, temos o exemplo de Vladimir Herzog, jornalista torturado e assassinado por exercer com radicalidade a missão de informar. A vida de Herzog é referência para a democracia e sua morte uma evidência dos limites e consequências da profissão.
Enfim, o jornalista deve se colocar em situação de risco por uma reportagem investigativa? Informar é sinônimo de se arriscar?
Em que medida a realidade, muitas vezes cruel e desumana, a que ele é levado a informar, é maior do que as suas possibilidades de vencê-las?
Por Éderson Silva e Joel Felipe Guindani
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
A cidadania comunicativa na prática radiofônica do Movimento Sem Terra

Resumo
Este artigo busca investigar as especificidades de construção e exercício da noção de cidadania comunicativa a partir da prática radiofônica do Movimento Sem Terra (MST). O corpus empírico delimita-se no discurso de lideranças nacionais do MST sobre o ‘fazer rádio’ e na experiência da Rádio Terra Livre FM, emissora protagonizada por agricultores assentados na região Oeste de Santa Catarina. Realiza a fundamentação da noção de cidadania comunicativa e identifica-a, a partir da prática radiofônica do MST, nos complexos níveis de participação - que vão desde o ‘dar voz ao sem voz’ até os processos mais orgânicos e ampliados, como a atuação dos assentados na gestão e no desenvolvimento de políticas comunicacionais - no acesso à tecnologia, nas negociações políticas internas, nas estratégias e resistências à hegemonia político-midiática local, que sinalizam indícios de uma cultura democrática.
Palavras-Chave: Cidadania comunicativa; Rádio; Movimento Sem Terra
Versão completa: Revista Rádio-leituras
http://radioleituras.files.wordpress.com/2010/12/radioleituras41.pdf
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Desconstrução metodológica na experiência da pesquisa de campo
Ao mesmo tempo em que a complexidade social questiona a utilização de teorias gerais, a pesquisa de campo problematiza a mera aplicação metodológica.
Este pode ser mais um sinal de que a metodologia não é apenas algo definido bibiograficamente ou pronto para ser aplicado de maneira instrumental. Tal reflexão até pode ser consenso para muitos pesquisadores, no entanto, para quem inicia uma pesquisa, esse entendimento precisa ser problematizado ou comprovado empiricamente, pois os primeiros passos de uma investigação são sempre em busca de segurança metodológica. Segurança que, no andar da pesquisa, vai se mesclando com imprevistos e novidades, os quais transformam a metodologia num espaço dinâmico e em permanente desconstrução.
Este artigo é fruto de uma combinação entre teorizações e fatos de uma pesquisa de mestrado, que revela a experiência de campo como lugar privilegiado de/para desconstrução metodológica. A noção de ‘desconstrução’ relaciona-se à importância da ‘processualidade’ em detrimento do ‘acabado ou estático’; condiz com ações metodológicas distantes de um positivismo racionalista, especialmente com investigações que não se reproduzem apenas a partir de técnicas construídas previamente à pesquisa de campo. O artigo também aborda o caminho metodológico anterior à incursão empírica e suas fragilidades quando fecha-se sobre si mesmo, mostrando, assim, como este fator, posteriormente, foi determinante para a identificação da pesquisa com os aportes metodológicos da Etnografia e Pesquisa participante.
Sem relativizar a elaboração prévia de um guia metodológico, o presente artigo enaltece o aspecto da ‘novidade’ que emerge durante a experiência de campo como fator constituinte do processo de desconstrução metodológica. Num constante fazer, a noção de desconstrução metodológica exige do pesquisador um olhar atento, dinâmico e uma postura disponível à co-participação na vida do universo investigado. Assim, a desconstrução metodológica situa-se como oportunidade à prática da alteridade, que considera indispensável a heterogeneidade das vozes e saberes para o seguir pesquisando.
Versão completa com: j.educom@gmail.com
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
LevanteCom Raquel Casiraghi

Olá, gostaríamos de te convidar para participar de um bate-papo sobre comunicação e a importância de nós, da esquerda, termos nossos próprios meios de comunicação. A fim de impulsionar a discussão chamamos a jornalista e assessora de imprensa do MST, Raquel Casiraghi.
O LevanteCom é um espaço criado pelo Setor de Comunicação do Levante Popular da Juventude, a fim de estimular o debate sobre temas da atualidade.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O jornalismo que nos falta

A cobertura jornalística dos acontecimentos é um importante espaço para sabermos por onde se encaminha a opinião pública, a conversa no boteco, os valores sociais, como o próprio jornalismo.
A ocupação das favelas do Rio de Janeiro pela força polícial foi um acontecimento que rendeu muita matéria prima para os veículos de comunicação. No entanto, este acontecimento nos serve para percebermos e comprovarmos como a cobertura jornalística comercial e hegemônica continua sendo espetacular, simplista e descontextualizadora.
Quer dizer, mais uma vez, esse jornalismo não nos dá indícios de uma cobertura diferenciada ou mais completa. Falta algo no jornalismo ou é um jornalismo que nos falta?
Para o professor e pesquisador da UFRJ, Muniz Sodré, "simplesmente mostrar não é informar. Pode ser, no limite, um modo de excitar a pulsão escopofílica do espectador". Para ele, é preciso "Informar criticamente. E continua:
Informar criticamente: - que se revela socialmente imprescindível no caso em pauta – seria comunicar os acontecimentos dentro do quadro explicativo de suas causas, aliás bastante evidentes para qualquer observador atento. Pode-se começar com os constituintes de 1988, que legislaram em matéria penal com a ditadura e o preso político em mente e, ao fundo, a doutrina liberal-individualista do direito pós-Revolução Francesa. Resultou daí uma legislação tíbia frente ao delinquente comum, com a impunidade no horizonte. Mata-se por dá cá essa palha.
Comedimento e responsabilidade
Em seguida, seria preciso colocar em pauta a corrupção avassaladora de governos, políticos, policiais etc. Não deixar também de indagar sobre a responsabilidade da sociedade civil (se é que esse conceito se aplica ao Brasil) no tocante às drogas e à mafialização generalizada, que vem pondo em segundo plano o problema do tráfico de drogas. Finalmente, tentar jogar alguma luz sobre as perspectivas de emprego para quem se dispõe a abandonar o crime.
Certo, o jornalista poderá responder a tudo isso com a alegação de que o imediato de sua condição profissional lança-o sob pressão sobre a superfície do fato, para dar conta a seu público das ocorrências em bruto. A notícia seria, assim, a pura e simples mercadoria de sua prática industrial. É o que se aprende, é o que se faz – e o que dá certo em termos de audiência e mercado publicitário.
Esse é, de fato, o modelo consagrado pelo jornalismo tal como o conhecemos e talvez não possa ser mudado sem mais nem menos. Mas é certamente um modelo sem amanhã cívico; portanto, algo a ser debatido e repensado.
Nesse meio tempo, seria oportuno um pouco mais de comedimento e responsabilidade social. A morte violenta do outro não pode converter-se em fantástico show da vida.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Repensar a emancipação sócio-comunicacional

Emancipação sócio-comunicacional é uma reflexão inspirada na noção de emancipação social desenvolvida pelo sociólogo Boaventura de Souza Santos. Já o aditivo "comunicacional" deve-se ao fato de que é cada vez mais inconcebível pensarmos ações sociais emancipadoras distantes do espaço comunicacional, sobretudo do midiático-tecnológico.
O campo da sociabilidade, composto também pelo econômico, religioso, cultural, político etc., é cada vez mais atravessado pelos processos de midiatização e concebê-lo fora dessa problemática é praticar uma compreensão limitada sobre a realidade. Nessa direção, as novas tecnologias estão colocando em crise o pensamento estritamente midiático-monopolista, que articula toda a sua crítica e projeção político-militante sobre o viés da manipulação, da sujeição/passividade dos ouvintes, leitores ou telespectadores.
Esta racionalidade midiático-monopolista é o principal fator que nos instiga "repensar" a racionalidade sobre o sócio-comunicacional na contemporaneidade, sobretudo, quando pretendemos desenvolver ações que sejam protagonistas de uma efetiva emancipação humana é popular.
Na perspectiva de Boaventura, o primeiro passo é revermos nosso modo de reflexão sobre as formas de produção de conhecimento [sócio-comunicacional]. Como ele mesmo enfatiza – no seu livro Renovar a teoria crítica e reinventar a emancipação social –, antes de transformar é preciso compreender, mas, sobretudo, compreender como compreendemos. Eis uma pergunta então necessária: como compreender a realidade se não problematizamos nossa maneira de compreendê-la? Toda a compreensão é erigida a partir de um ponto, de um tempo/espaço e que, para sua eficácia ou validade, deve acompanhar as transformações daquilo que busca compreender.
Experiências emancipadorasA compreensão do sócio-comunicacional realizada por muitos movimentos, associações, sindicatos, que discursam sobre formas de libertação/emancipação, partem do ponto ou espaço/tempo que é, na grande maioria, o da manipulação/sujeição/passividade – sem contarmos que muitos deles não consideram a comunicação como importante investimento. Para Boaventura, pensamentos ou compreensões limitadas não nos servem mais. Mediante isso, um segundo passo para a emancipação sócio-comunicacional é o reconhecimento ou compreensão de experiências diversas, que emergem das novas tecnologias, apropriadas por sujeitos em distintos espaços do tempo presente.
Não podemos desperdiçar experiências, alerta Boaventura. Para isso, ou complexificamos e ampliamos a nossa racionalidade sócio-comunicacional, ou estaremos alimentando o círculo vicioso do discurso apenas crítico, que alardeia sem propor alternativas concretas.
Ações exemplares ou racionalidades amplas, que protagonizam a emancipação sócio-comunicacional são identificadas em movimentos sociais, como o Movimento Sem Terra (MST) e até mesmo em projetos do Ministério da Justiça, através do Programa Nacional de Segurança com Cidadania – Pronasci. Vejamos.
Durante este segundo semestre de 2010, professores e alunos da Escola Nova Sociedade, localizada no assentamento Itapuí – Grande Porto Alegre (RS) – e militantes do MST desenvolveram oficinas de comunicação, produzindo podcasts e outros conteúdos para blogs. Um dos jovens assentados, integrante do grupo, enfatiza que "existem muitas tecnologias que podem contribuir não só para o uso pessoal. Um celular pode mandar mensagens, notícias e informações. Isso, até um tempo atrás, era coisa só de uma elite ou dos donos da mídia, mas agora não mais".
No município de Canoas (RS), a Agência da Boa Notícia Guajuviras, um dos projetos do Pronasci, mobiliza mais de 240 jovens em torno da reflexão e do uso das novas tecnologias. Para um dos jovens, "agora podemos dizer coisas do nosso bairro que antes a RBS não dizia. Além de estar aqui aprendendo uma profissão, essa oportunidade melhora a nossa vida aqui no bairro", destaca.
Por uma educação popular
Para Boaventura, estas ações, que são desenvolvidas a partir da realidade midiática local não podem ser desconsideradas por Movimentos sociais ou teorias que buscam compreender e desenvolver projetos alternativos. Mais do que reconhecer ou desenvolver é indispensável também a sistematização, divulgação e interconexão dessas experiências com outras existentes. Sair do localismo para o global é um movimento necessário, mas que requer sensibilidade e acolhida ao invés de separação e distinção entre siglas partidárias, bandeiras de luta ou posicionamentos teóricos. Precisamos ampliar o reconhecimento das diversas práticas comunicacionais do presente e reduzir a aquela expectativa salvífica posta apenas num futuro, afirma Boaventura.
Assim, a emancipação sócio-comunicacional despontará quando um processo educativo popular for implementado pelas forças contra-hegemônicas atuais, como movimentos sociais, sindicatos e associações comunitárias. Essa proposta de educação popular comunicacional deverá conceber os meios de comunicação não mais pela sua lógica instrumental, mas como um espaço capaz e tão importante de mobilização e de luta quanto o próprio partido político, o movimento social ou a associação.
Como diz o subcomandante Marcos, do movimento zapatista, se "pudemos ficar calados por 500 anos", então é porque desponta um momento positivo e de novas alternativas libertadoras. Para isso é urgente uma racionalidade mais ampla, que contemple experiências de mídia gestadas por sujeitos, mesmo que em suas individualidades ou nas mais remotas comunidades, mas que indiciam a concretude de uma comunicação social emancipadora e popular de verdade.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Tom Morello, guitarrista do Rage Against The Machine, fala no Twitter sobre apoio ao MST
Durante apresentação no festival SWU, em ITU, interior paulista, Zack de la Rocha, vocalista do Rage Against the Machine, dedicou a música People of the Sun ao MST - Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Ele disse: "Esse som vai para os irmãos e irmãs do MST: People of the sun" Em seguida, durante a música Wake Up, o guitarrista Tom Morello colocou um boné do MST e poucos minutos depois a rede Globo, que transmitia o festival, cortou a transmissão do show. Um comunicado oficial - falando do apoio da banda ao movimento durante a apresentação - foi divulgado hoje (10) no site oficial do MST. Tom Morello também se pronunciou pelo Twitter: "Se a rede de tv cortou as cenas em que eu aparecia c/ o boné do MST, é sinal que estamos vencendo", postou o guitarrista do Rage.quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Edgar Morin: "Por reforma agrária e sustentabilidade ambiental"

Em entrevista concedida ao site do Estadão, Edgar Morin fala que "a demora em fazer uma reforma agrária no Nordeste pode significar o avanço da agroindústria na Amazônia, um perigo para a ecologia."
Confira a entrevista:
OE - O senhor costuma dizer que a pluralidade do País reflete a grandeza do Brasil, um possível modelo para o mundo. Como e onde vê essa grandeza?
MORIN- Para alguém que vem da Europa, um continente de nacionalidades fechadas, o Brasil sempre me pareceu aberto a outras etnias - e é essa civilização da mestiçagem brasileira que me interessa. Vejo a grandeza do Brasil na pluralidade étnica de Salvador e na biodiversidade da Amazônia. Acho, porém, que é importante a restituição dos territórios e o reconhecimento das culturas das populações indígenas, porque o mundo considera a Amazônia patrimônio da humanidade, mas pensa pouco na preservação dessas culturas. A noção de desenvolvimento hoje corrente pode ser devastadora para os índios - e não apenas para eles, mas para toda a humanidade, considerando que a integração dos índios à sociedade não pode significar a desintegração da cultura indígena. Isso pode trazer consequências graves, como a degradação da floresta pelo uso de pesticidas nos projetos agrícolas dos latifundiários.
Claro, há também a questão urbana e a favelização das cidades, tão grave como o crescimento do número de carros em circulação. O Brasil é um país pacífico, sem espírito colonialista ou de revanche contra os outros. É também um país em desenvolvimento, embora esse desenvolvimento seja o da classe média - o que pode representar no futuro uma intoxicação consumista. É preciso, antes de consumir, recuperar o hábito de reparar os objetos para que o mundo não vire um depósito de sucata.
OE - O senhor falou da grandeza da Amazônia. Como vê, então, a possibilidade de proteger a floresta com a precária educação ambiental dos invasores?
MORIN- Assentar os migrantes é, de fato, um grande problema, e acho que a demora em fazer uma reforma agrária no Nordeste pode significar o avanço da agroindústria na Amazônia, um perigo para a ecologia, como já disse. Infelizmente, a corrupção no Brasil ainda é muito grande - considero mesmo o problema principal do País. Respeito profundamente o passado e o presente do presidente Lula, mas acho que ele tem de enfrentar essa máquina infernal do liberalismo econômico que ainda vai destruir a Amazônia e as culturas indígenas, que são não só um patrimônio brasileiro, mas de toda a humanidade.
Continua em:
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090802/not_imp412201,0.php
terça-feira, 2 de novembro de 2010
O contexto latino americano, novos saberes e a diversidade epistemológica

Em palestra realizada no mês de setembro deste ano, na Colômbia, o sociólogo Boaventura de Souza Santos apresenta suas teses sobre os caminhos e descaminhos da sociedade contemporânea, evidenciando como, nesse contexto de aberturas democráticas, emergem novas saberes, que por sua alta densidade de reconhecimento das experiências locais, problematizam as epistemologias ocidentais que até então prevaleceram sobre a produção e distribuição de conhecimento.
Há, no interior da vida cultural e política latino americana , alguns movimentos constantes de resistência e ação política e cultural. Boaventura refere-se à duas noções: Lutas ofensivas, as que questionam o capitalismo e o colonialismo, tendo em vista outro mundo possível. O capitalismo não é apenas um modo de produção, mas um modo de civilização, que caminha para a destruição e morte da vida, tanto a humana como a ambiental. Lutas defensivas: uma luta para não se perder o que já conquistamos. Boaventura também destaca que essas lutas defensivas são respostas ao ataque da política norte americana, ainda ativo na contemporaneidade. Basta, segundo ele, observarmos as tentativas de secção e isolamento aos países como Venezuela, Cuba, Costa Rica, como também o próprio golpe em Honduras, a tentativa de militarização da fronteira Amazônia tão defendida por políticos brasileiros; o terrorismo contra os movimentos sociais, especialmente no Brasil, como o pretendido contra o Movimento Sem Terra pelo governo tucano de Ieda Crusius.
Para Boaventura, o contexto latino americano é da acumulação capitalista, que se expressa na agenda política, cultural e social ainda colonialista: “a concentração da terra é colonialista, o racismo é colonialista”. Ainda ressalta que é preciso considerar o uso contra-hegemônico de instrumentos hegemônicos que a sociedade organizada vem fazendo: o uso dos espaços eleitorais e democráticos e as vias legais do estado como bem se utiliza o MST. Esse uso contra-hegemônico é algo novo que está surgindo nas brechas do neoliberalismo. Assim, devemos repensar as teorias que não as previam: "Essa imprevisibilidade é a expressão do seu distanciamento da prática". Quer dizer, são teorias que não vêem o que está se passando na prática : “os movimentos sociais do sul não estão previsto nas teorias eurocêntricas, tanto a neoliberal como boa parte da marxista. As mulheres, negros, indígenas são invisíveis e não se constituíam como uma força importante para a esperada revolução.
Isso se deve, para Boaventura, ao fato de que as epistemolgogias do norte foram criadas a partir de cinco países: Alemanha, Inglaterra, Itália, França e EUA: “o erro da teoria fora da prática gera o desperdício de experiências”. Temos, por um lado, teorias produzidas no norte e, por outro, experiências produzidas no sul. "Essas práticas ficam desprotegidas de sistematizam e na maioria das vezes são apropriadas por teorias colonialistas ou relativistas."
Segundo Boaventura, devemos inventar novas epistemologias que reconheçam essas experiências, que não são totalizantes ou que seguem uma única lógica apenas histórica como apregoam alguns aportes científicos ocidentais : “não devemos defender um único critério de validez do conhecimento”. E mais, não podemos planejar nossas ações somente a partir de outros conhecimentos. Há uma pluralidade epistemológica e ontológica no mundo: “não há uma única forma de viver e de conhecer”. É preciso escapar do conhecimento monocultural eurocêntrico. Devemos considerar o conhecimento cientifico de alta densidade e de relação com as experiências locais e com os saberes emergentes dos movimentos sociais. Aqui vale destacar a noção de ecologia dos saberes. Para Boaventura, o conhecimento ocidental tem dificuldade de reconhecer ou identificar a riqueza da espiritualidade nas manifestações culturais e políticas do sul. Por isso, “as teorias ocidentais reduzem ou desconsideram o que elas não compreendem ou produzem como inexistente o que elas não entendem”.
Há, para o sociólogo, uma diversidade de epistemologias pelo mundo e a compreensão do mundo é muito maior do que a compreensão ocidental do mundo. Por exemplo, a noção de estado não é mais a de estado único, como a concepção moderna. O estado não é mais uma unidade porque ele se constitui, cada vez mais, na tensão com as forças plurais da sociedade. Há o desponte de novos estados modernos que variam entre "democracias deliberativas, representativas, participativas e comunitárias."
Eis a diversidade das práticas, saberes e democracias que emergem no contexto latino americano e que fundamentam a necessidade de novas perspectivas epistemológicas sobre estado, política, cultura, sociedade e movimentos sociais.
domingo, 24 de outubro de 2010
Um encontro com Jorge Gonzáles:a constituição de objetos de pesquisa e a ciência como ato político

Pesquisar ou pretender-se pesquisador é um ofício que exige resiliência. Primeiro, porque os desafios, alegrias e tropeços não são poucos e, em segundo, é preciso estar atento e flexível, pois tudo particpa desta construção.
O instigante e animador encontro com o professor Dr. Jorge Gonzáles, reforçou não apenas algumas certezas, mas, sobretudo, inquietações para o “seguir pesquisando”. O encontro com Gonzáles foi dilacerante para pesquisas que por vezes configuram-se apenas como abstrações teóricas ou fabulações retóricas: é preciso ser claro e estabelecer comunicação, ao invés de obscurantismos com os problemas concretos de nossa realidade, destacou o professor. Nesta direção, Gonzáles alertou-nos sobre as formas de como vamos conhecendo e construindo nossos objetos de estudo: esse processo tem que ser claro e sempre explicito em nossas teses, artigos ou dissertações.
Não apenas defensor do empirismo, Gonzáles reforçou a ideia de que os conceitos científicos constituem teorias que iluminam a construção de um problema concreto. Prevalência do empírico sobre o teórico?
Não. Gonzáles deixou claro que a construção de um objeto de pesquisa deve ser norteada por um arcabouço conceitual e teórico, os quais ampliarão a visão do pesquisador mediante a consttrução e solução de problema concreto. Óbviamente que a construção do objeto pode ser, inicialmente, empírica, ou seja, a partir de um problema que inquieta nossa existência cotidiana. Sendo assim, o passo natural é elaboração de uma pergunta relativa ao que se identifica no concreto – ou a partir do mais evidente. Temos, então, a construção da “pergunta-problema prático”, que ao ser explorado irá requerer e estabelecer relações com conceitos e, posteriormente, designar diferenciações com os aportes teóricos em jogo.
A noção de “pergunta-problema prático” também diz respeito à necessidade de clareza da estruturação cientifica, bem como a aplicabilidade dos seus resultados, que devem ser compreendidos e, sobretudo válidos ao campo investigado: toda a pesquisa deve ser uma resposta aos diversos e urgentes problemas de nossa realidade.
Para Gonzáles, isso só será possível se os resultados da pesquisa, mesmo que em forma de abstrações teóricas, forem compreendidos por todos os sujeitos que a compõe: apresenta-se, então, a noção de ciência como ato político e de intervenção social. Observa-se, assim, não apenas um modo empírico de constituição do objeto e uma ideia de ciência cíclica ou instrumental, onde o empírico e o teórico atuam com um fim e si mesmos.
Assim, Gonzáles utiliza-se do símbolo “@” [Lê-se arroba] como revelador da constituição do objeto de pesquisa e do próprio campo científico. Ao invés do espiral ou do círculo, toda pesquisa cientifica deve ser impulsionadora; jogar conhecimento para fora; ser centrífuga; como movimento que expulsa criatividade e resultados, que sirvam à solução de problemas de nossa atualidade, esta, ainda marcada pela desigualdade econômica e degradação ambiental.
Enfim, a exemplo de Bourdieu, Gonzáles ressaltou que todo o pesquisador pode contribuir com a criaçao de condições sociais que facilitem uma produção coletiva de utopias realistas.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Vargas Llosa em Porto Alegre

"As letras e artes são os únicos campos menos afetados pela especialização e pelo domínio de uma elite”.
Distante de ser comunista ou um confesso liberal, Mário Vargas Llosa, Prêmio Nobel de literatura 2010, esteve em Porto Alegre nesta quinta-feira (14). Peruano, casado duas vezes, primeiro com uma tia e depois com uma prima, criticou os regimes de Castro e Chaves. Afirmou que a única “deformidade política” de Lula é seu excesso de cordialidade e de convívio harmonioso com os referidos companheiros.
Na coletiva, Llosa discursou por mais de uma hora e elogiou a atuação de Lula, especialmente os programas de inclusão social e de modelo econômico.
Durante a noite, em conferencia para mais de seiscentas pessoas, focou seu discurso no papel libertador da Cultura: “a cultura, artes e a literatura se justificam pela capacidade de transformação social. Apresentam-se para ocasionar estado de incômodo e de instabilidade em qualquer espaço”, destacou.
Durante o debate com os participantes afirmou estar animado, mas preocupado com os caminhos da humanidade: “Progresso da humanidade? Menos analfabetismo e aumento da produção bélica?”, interrogou.
Para Vargas, a cultura é algo que antecede o conhecimento, pois é a sensibilidade que nos leva ao conhecimento. Defensor dos direitos humanos, Llosa afirmou que “as formas de liberdade de expressão são indícios de cultura” e que em nossa história, “as letras e artes são os únicos campos menos afetados pela especialização e pelo domínio de uma elite”.
Ao final, distribuiu autógrafos e não quis revelar o que fará com o prêmio de 1,5 milhão de dólares: “perguntem para minha mulher. Ela cuida das nossas finanças. Mas espero que ao menos eu consiga algum dinheiro para continuar comprando meus livros”.
Segundo Aline Evers, 26, tradutora, “foi ótimo assistir o Llosa, ainda mais porque ganhou o prêmio na semana passada. Eu não gostei muito da palestra dele. Acho que o debate foi o mais interessante. Ele poderia ser mais espontâneo e não tanto preso no papel. Minha sugestão é que venham mais intelectuais da lingüística, como Chomsky, por exemplo", destacou.
sábado, 2 de outubro de 2010
EreCom Sul 2010

O Encontro Regional dos Estudantes de Comunicação Social – Erecom sul é um congresso que reúne os estudantes dos diversos cursos de comunicação (jornalismo, relações públicas, publicidade, cinema, rádio e tv, etc) dos estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina para discutir temas relativos à comunicação como a democratização, as opressões (como o estereótipo de gays e lésbicas apresentado em novelas, a representação da mulher, a segregação dos negros, por exemplo), o currículo de seus cursos e problemas comuns nas faculdades.
O Erecom faz parte dos encontros regionais que a Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação realiza (para saber mais vá em Enecos) e eles acontecem nas diversas regiões do país em que a Executiva se divide, como sudeste, centro-oeste, norte e nordeste. Nesses encontros os estudantes discutem temas mais relacionados as suas regiões e realidades, acumulando conhecimentos para o Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação, o Enecom, que reúne os estudantes de todo país e para o Congresso Brasileiro dos Estudantes de Comunicação, o Cobrecos, que define as ações da executiva ao longo do ano e seus principais posicionamentos.
O Erecom sul de 2010 vai acontecer de 9 a de 12 de outubro na Escola Municipal Thiago Würth em Canoas, no Rio Grande do Sul. O tema escolhido é “ Uma alternativa de comunicação popular”. Saiba mais em:
http://www.erecomregionalsul.blogspot.com/
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
A confissão da mídia

Até os hidrantes da avenida Paulista sabem que a imprensa de São Paulo está em campanha contra Dilma Rousseff e em favor de José Serra. A revista Veja e os jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo têm sido cabos eleitorais tão despudorados quanto o presidente da República na defesa da sua pupila Dilma. É pontapé nos países baixos contra soco no fígado. Até agora, contudo, a grande imprensa tentava fingir imparcialidade e vociferava contra as afirmações de Luiz Inácio de que haveria favorecimento aos seus opositores. Finalmente o velho e conservador "Estadão" resolveu abrir o jogo. Em editorial, proclamou seu apoio a José Serra. Os hidrantes da luxuosa Paulista sorriram. A necessidade, volta e meia, faz a "virtude". Mas é apenas mais um gesto desesperado para tentar uma virada improvável. É só. Yes.
O texto da adesão oficial é um primor de maniqueísmo, com algumas mentiras deslavadas e o tom de falsa sensatez que caracteriza o discurso extremista da direita: "Com todo o peso da responsabilidade à qual nunca se subtraiu em 135 anos de lutas, o Estado apoia a candidatura de José Serra à Presidência da República, e não apenas pelos méritos do candidato, por seu currículo exemplar de homem público e pelo que ele pode representar para a recondução do país ao desenvolvimento econômico e social pautado por valores éticos. O apoio deve-se também à convicção de que o candidato Serra é o que tem melhor possibilidade de evitar um grande mal para o país".
Qual o mal que Serra poderá evitar? Qual o mal que Dilma poderá causar? O de permitir que o Brasil continue crescendo economicamente e salvando-se das crises internacionais como aconteceu durante o governo de Luiz Inácio? Se não fosse maniqueísta, o "Estadão" poderia ter dito que Serra faria mais bem ao Brasil. É uma sutileza, claro. Mas o jornal preferiu sugerir que Dilma representa o mal, um grande mal para o país. Certamente o mal de continuar incorporando jovens carentes ao mundo universitário, tirando milhões de pessoas da condição de miséria absoluta, conservando programas sociais existentes em qualquer país civilizado como França, Alemanha e Inglaterra, sem contar os países escandinavos, pois aí já seria apelação e complexidade demasiada para a mentalidade tacanha e linear dos redatores do "Estadão".
No passado, para evitar o "mal", o "Estadão", abriu voto para Collor, Veja e Folha de S. Paulo precisam seguir o mesmo caminho e confessar a preferência por Serra. Só há um pequeno problema: o que o "Estadão" considera um mal para o Brasil, a continuidade do atual governo, 80% da população acha um bem. É isso que dói no lombo da mídia tucana. Resta para essa gente uma pretensa explicação sofisticada: a ignorância da plebe supostamente comprada pelo Bolsa-Família. José Serra, o cavaleiro do bem, promete, se eleito, possibilidade tão grande quanto a do Barueri ser campeão brasileiro neste ano, ampliar o Bolsa-Família. Quer tomar para si a "máquina de comprar votos"? Sem dúvida, o Brasil pode muito mais. Pode viver sem serrar a opinião pública.
Juremir Machado da Silva
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Conhecer a diversidade

Estabelecer uma relação dialógica com a diversidade é um desafio para pesquisas, teorias ou sistemas de saber. Pretendemos conhecer o que está distante e obscuro, mas na verdade há sempre uma parcela de inquietação inicial, de simpatia, de proximidade com esse desconhecido. Há, portanto, um indício ou breve noção do que colocamos no caminho do que deve ser conhecido. Essas preferências, recortes, isto ou aquilo, são posicionamentos orientados por nossos valores intersubjetivos, que se constituem na individualidade cognitivista, mas, sobretudo, na interelação com o Outro, seja ele objeto, indivíduo ou fenômeno.
Quer dizer, buscamos conhecer o desconhecido, mas que de antemão pressupõe algum tipo de curiosidade ou conhecimento. Conhecemos o que nos interessa ou o que nos é simbólico? O diabólico, o que separa ou não nos aproxima é execrado e sem sentido. Implanta-se ai o problema do conhecimento sobre o diverso; sobre o diferente. Aquilo que não conhecemos não é conhecimento? A diversidade é o desafio que movimenta ou que paralisa a busca por conhecimento?
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Aspirantes a jornalistas da Agência da Boa Notícia Guajuviras começam capacitação

Cerca de 40 alunos estavam sentados a espera das informações sobre a Agência da Boa Notícia Guajuviras quando após ouvirem as palavras das Coordenadoras do projeto Andréa Freitas e Christa Berger tiveram uma surpresa. Com um violão nas mãos e uma didática surpreendente, o professor de rádio do curso de Comunicação Social da Unisinos Joel Guindani, deixou o primeiro contato com os jovens do projeto mais divertido. A música “É preciso saber viver” de Roberto Carlos e recentemente gravada pela banda de Rock Titãs, foi tocada e cantada por Joel. Arrancou palmas ritmadas e sorrisos inibidos de quem acabava de se conhecer. Na dinâmica de integração foi proposto ainda uma apresentação. A cada cinco jovens a citar o nome com um gesto característico da personalidade, o refrão “Seja bem vindo olêlê, seja bem vindo olalá, Paz e bem para você que veio aqui para comunicar” encerrava de forma bem humorada a rodada.
O bate-papo nesta segunda-feira, 30, na sede da subprefeitura nordeste foi além das brincadeiras, foi de perspectiva de mudanças. Transformações não só para a vida de cada integrante que estará participando de um momento de mudanças no bairro, mas também porque vão ajudar a desconstruir o estigma de violência do bairro. Até o dia 14 de dezembro 80 jovens entre 16 e 24 anos serão capacitados nas áreas de produção de conteúdos em Videodocumentário, Internet, WebTV, RádioWeb, Fotografia, Comunicação Cidadã e Práticas e produção jornalística, para atuar como repórteres cidadãos. As oficinas serão ministradas por professores da graduação e da pós-graduação da Unisinos, parceira da prefeitura de Canoas no projeto. Os alunos farão duas oficinas obrigatórias, práticas de comunicação cidadã e práticas de produção jornalísticas, e mais duas conforme a aptidão. “Teremos uma plataforma na web onde o trabalho dos jovens serão postados” explica a coordenadora do projeto pela secretaria de Segurança e Cidadania Andréa Freitas. A coordenadora pedagógica e professora da Unisinos Christa Berger ressaltou que o desafio não será só o de ensinar as técnicas da comunicação, “será também de contar boas histórias. O bom jornalista conta histórias e certamente vocês devem ter muitas histórias para contar, queremos ouvir os sonhos de vocês” instigou. A capacitação terá duração de três meses. A formatura das duas primeiras turmas está prevista para o dia 15 de dezembro, onde os alunos receberão certificados da Unisinos como técnicos.
O Comunicação Cidadã é um dos 12 projetos do Programa de Segurança Pública com Cidadania do Ministério da Justiça que está sendo implantado no bairro Guajuviras/ Território da Paz. Tem como objetivo promover ações de prevenção à violência por meio de oficinas de Comunicação Cidadã e despertar para o direito a informação. Isso será feito através da confecção de boas notícias do bairro. A Agência da boa notícia Guajuviras funcionará em um espaço localizado na avenida Boqueirão, próximo a rótula do Guajuviras e contará com estúdios profissionais de RádioWev, TVWeb e salas de oficinas equipadas com computadores, microfones, câmeras fotográficas e filmadoras.
Taís Dal Ri
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
A Juventude quer comunicar!

Integrantes do Processocom, Movimento Sem Terra, professores e alunos da Escola Nova Sociedade discutem sobre Juventude e Comunicação.
Na próxima sexta-feira (13), integrantes do Processocom, jovens assentados, professores e militantes do Movimento Sem Terra (MST) debaterão sobre os desafios e possibilidades entre comunicação alternativa e juventude. O encontro será na Escola Estadual de Ensino Médio Nova Sociedade, localizada no assentamento Itapuí, interior do município de Nova Santa Rita, há 21 km de Porto Alegre (RS).
A ideia desse encontro surgiu da Professora Elizabete Witcel, especialmente após perceber que alunos e professores discutiam sobre as possibilidades de criação de um jornal ou de uma rádio na escola: “tem um grupo muito animado e se pudermos fazer um encontro tenho certeza que eles e alguns professores irão levar adiante a ideia de uma rádio ou de jornal na escola, ou até mesmo aqui nos assentamentos”, destaca. Para Elizabete, a comunicação é espaço educativo privilegiado: “todos os alunos querem comunicar, pois eles sempre estão em contato com algum meio de comunicação, como televisão, celular, rádio e isso é bom para uma questão educativa; para que eles possam ser comunicadores de fato”, comenta.
O primeiro encontro, com a temática “A juventude quer comunicar”, será espaço de debate sobre motivações e desafios da construção de mídias alternativas, tendo como ponto de partida a conjuntura midiática local, suas limitações e alternativas possíveis. Também serão discutidas questões relacionadas ao protagonismo juvenil. De acordo com um dos maiores pesquisadores sobre a questão da juventude, Padre Hilário Dick, “as sociedades, em todos os tempos, tiveram e têm dificuldades em admitir a novidade emergindo das manifestações juvenis, na sua grande maioria consideradas menos importantes”, salienta. Padre Hilário ainda pontua que “a juventude não está feita: ela está se fazendo. Carrega em si a dimensão da criatividade e de uma criação que não está pronta. Ela é encarnação da criação acontecendo na humanidade”.
Professora Elizabete comenta que esse é o primeiro passo para a consolidação de um grupo de jovens comunicadores, que futuramente irão facilitar as formas de comunicação e informação não apenas no ambiente escolar, mas com toda a comunidade: “nosso objetivo é começar escutando os jovens sobre suas ideias com relação à comunicação. Logo após, poderemos ir formando um grupo para a prática mesmo, de um jornal ou de uma rádio. No final, certamente teremos um grupo de comunicadores não apenas aqui na escola, mas atuando em toda a comunidade assentada”, finaliza.
Os encontros serão assessorados por Raquel Casiraghi, Bianca Costa e Miguel Stédile, do Setor de Comunicação do MST e também por Joel Felipe Guindani e Ricardo Machado, integrantes do Processocom. Você também poderá contribuir, envie um email para j.educom@gmail.com e informe-se.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
As Políticas radiofônicas do MST no cotidiano da Rádio Terra Livre FM

Resumo: Busca refletir sobre a relação entre demandas do cotidiano dos ouvintes e o funcionamento da Rádio Terra Livre FM na sua relação com as Políticas radiofônicas do Movimento Sem Terra (MST). A Rádio Terra Livre FM, desenvolvida por agricultores assentados, ao mesmo tempo em que pretende fidelidade às políticas radiofônicas, depara-se com as demandas do cotidiano, que para alguns locutores reorietam sua condução política/politizante. Problematiza-se a especificidade da tecnologia radiofônica e as teses de Michel Maffesoli: da primazia do cotidiano sobre a instituição e do presente plural sobre o projeto político e linear.
Palavras-chave: Cotidiano; Rádio Comunitária; Movimento Sem Terra.
Versão completa em:
http://www.intercom.org.br/sis/2010/resumos/R5-2266-1.pdf
terça-feira, 27 de julho de 2010
Eleições da FENAJ

Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) está em clima de campanha eleitoral. Uma nova direção deverá ser escolhida pelos jornalistas para tocar esta que é a instituição máxima da categoria no Brasil. Duas chapas se apresentaram com propostas para o próximo biênio. Uma delas, a da situação (Chapa1), causa surpresa ao expressar no seu nome uma idéia de mudança. Virar o jogo, diz o grupo que está na direção há anos, sempre executando a mesma política
Já a Chapa 2, Luta, Fenaj! é um movimento que reúne jornalistas em todo o país na defesa dos direitos da categoria e por mudanças na política conduzida pela atual direção da Fenaj, a Federação Nacional dos Jornalistas. Em 2010, o Luta, Fenaj! montou uma chapa para disputar as eleições da direitoria da entidade, que acontecem de 27 a 29 de julho em todos os sindicatos filiados à federação.
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sexta-feira, 23 de julho de 2010
Congreso de Comunicación Alternativa: Medios, Estado y Política COMEP

En un contexto histórico político donde las distintas sociedades latinoamericanas ponen en discusión la impronta político cultural neoconservadora, una revisión profunda incluye los procesos de producción y reproducción del conocimiento.
En Argentina, nos encontramos ante una oportunidad histórica de discusión de las políticas públicas comunicacionales a partir de la reciente sanción de la Ley de Servicios Audiovisuales. Trabajar en una nueva agenda de discusiones latinoamericanas destinadas a un programa regional de formación de comunicadores sociales y periodistas en pos de sociedades inclusivas es uno de los objetivos centrales de este congreso.
Fecha límite para presentación de resúmenes: 08 de Agosto
Fecha límite para la presentación de ponencias: 17 de Septiembre
Mesas de Trabajo
1. Comunicación y Políticas Públicas
2. Ley de servicios audiovisuales: antecedentes, discusiones y prospectiva
3. Los medios y las implicancias en la trama sociocultural
4. Los medios frente al avance tecnológico
5. Movimientos sociales y de comunicación: estrategias
6. Periodismo y Periodistas: responsabilidad civil y ética periodística en las sociedades contemporáneas
7. Comunicación, política y medios: construcción de las agendas
8. Los medios de Comunicación en América Latina: la vinculación de los medios con los procesos políticos
9. Usos sociales de los medios
10. Experiencias y prácticas de comunicación alternativa
* Para mayor información:
Web: www.congresocomep.wordpress.com
Correo: comep@perio.unlp.edu.ar
sexta-feira, 9 de julho de 2010
Futebol e o brilho da liberdade

O Observatório da Imprensa veiculado na terça-feira (6/7) pela TV Brasil exibiu uma entrevista especial de Alberto Dines com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, gravada em 30/6, em Montevidéu. O assunto? Futebol, é claro. Em tempos de Copa do Mundo, Galeano interrompe todas as suas atividades para dedicar-se inteiramente aos jogos. Chega a "disputar" três partidas por dia. Na porta de sua casa, uma placa desenhada pelo próprio escritor avisa: "Cerrado por fútbol". E só retoma as atividades após o apito final do último jogo do mundial.
Autor de mais de 40 livros de ficção, análise política, jornalismo e história, Galeano completa este ano meio século de atividade intelectual. Entre suas obras mais conceituadas está Futebol ao Sol e à Sombra, uma coletânea de ensaios e crônicas sobre o esporte. Na abertura do programa, gravada no Estádio Centenário de Montevidéu, palco da primeira Copa do Mundo, Dines anota que a equipe da TV Brasil foi ao Uruguai "especialmente para encontrar uma das figuras máximas das letras latino-americanas e da cultura uruguaia".
Na entrevista, Galeano explicou a Dines que a placa é uma antiga tradição dele e de sua mulher, Helena. A cada ano, desenha um novo cartaz. "A gente fica aqui vendo todas as partidas. Nós dois somos malucos por futebol", disse. O escritor admitiu que o esporte, muitas vezes, causa sofrimento, mas ponderou que também é fonte de felicidade. "É uma alegria estranha. É uma alegria que dói", explicou.
Assista o vídeo da entrevista
http://www.youtube.com/watch?v=_xsJ7pl8RFA&feature=player_embedded#!
quinta-feira, 8 de julho de 2010
Sem provas, CPI do MST é arquivada

Não há desvio de dinheiro público para a ocupação de terra no Brasil.
Foi o que concluiu o relatório apresentado nesta quarta-feira (08) da CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) que investigou a ligação entre entidades da reforma agrária e ministérios do governo. No total, foram realizadas treze audiências públicas em oito meses. A CPMI também investigou as contas de dezenas de cooperativas de agricultores e associações de apoio à reforma agrária.
O relator da CPMI, deputado federal Jilmar Tatto (PT/SP), comenta as conclusões do trabalho.
“Foi uma CPMI desnecessária. Na verdade são entidades sérias que desenvolvem um trabalho de aperfeiçoamento e de qualificação técnica do homem do campo. O que deu para perceber foi que a oposição, principalmente o DEM e o PSDB, estavam com uma política de criminalizar o movimento social no Brasil. Tanto é verdade que, depois de instalada a CPMI, eles não apareceram nas reuniões.”
O deputado federal Onxy Lorenzoni (DEM/RS) pediu vista do relatório durante a última sessão. Com isso, uma nova reunião foi marcada para a próxima quarta-feira (14). A expectativa é de que a bancada ruralista coloque em votação um relatório paralelo à relatoria oficial, mesmo não tendo participado das audiências de investigação.
“Eles tentaram como último suspiro prorrogar a CPMI. Eu fiquei sabendo que eles não conseguiram as assinaturas para essa prorrogação. Então só cabe a oposição apresentar um relatório alternativo.”
Para Jilmar Tatto, a CPMI reafirmou a importância dos convênios estabelecidos para a execução de políticas públicas nos assentamentos e nas áreas rurais.
“Essas entidades fazem a ponte entre os órgãos do Estado com aquelas pessoas que mais precisam, fazem um trabalho fundamental de resgate da cidadania desses setores da sociedade que estão marginalizados.”
terça-feira, 22 de junho de 2010
Os cidadãos do terceiro tempo.

A bola da vez é a bola. O sol da terra!O cenário da Copa do Mundo, enquanto manifestação cultural, sempre nos instiga a alguns questionamentos, sobretudo ao observarmos a magnitude de um evento outrora restrito ao estádio, agora em sua esfera cada vez mais mercantil e midiatizada.
No entanto, um dos princípios fundamentais, talvez esquecido pela produção midiática da Copa 2010, é o reconhecimento das diferenças culturais e econômicas que fundamentam a realidade, bem como a expressão da subjetividade do seu público, tanto o torcedor quanto o telespectador. Evidencia-se que o único critério de noticiabilidade é a surpresa e o detalhe hiper-reprisado, como o super close no tornozelo torcido de um jogador, ou a comemoração esquisita de algum fanático nas arquibancadas. Pelas objetivas digitais, registram-se e remodelam-se identidades que são concebidas na expressão de distintas raças, gêneros e etnias, especialmente quando construídas sob as lágrimas da vitória, mas, sobretudo as da derrota.
Em outras palavras, os processos de midiatização da Copa 2010 dinamizam os espaços de publicização das identidades culturais, especialmente através de imagens que estampam as cores e símbolos de uma nação, trazendo à tona o deslumbrar de uma memória socialmente construída, como nos lembra Stuart Hall. Nesse sentido, o espaço midiático efetiva-se como um canal onde muitos valores e produtos são legitimados, na maioria das vezes sem a intervenção ativa dos telespectadores: a oferta midiática é sempre maior do que a demanda do receptor, alerta Dominique Wolton.
Mão dupla
Mas qual a intenção dessa midiatização cultural-identitária? Em que medida o público, tanto o telespectador como o midiatizado, pode considerar-se cidadão nesse espaço?
Não podemos deixar de destacar os interesses comerciais, de marketing, venda e autopromoção das grandes multinacionais. Porém, todas acionam o discurso nacionalista, dependendo da tela em que aparecem: as marcas européias, asiáticas e norte-americanas são agora fanáticas pela seleção verde e amarela. Nessa época, a incitação ao consumo beira o extremo. Aproveitam nossa sensibilidade à flor de uma pele que treme frente à tela na espera de seu time. Não pretendemos com esse discurso neutralizar o papel do mercado, mas evidenciá-lo a partir de uma perspectiva crítica, que leve em consideração a complexidade dos valores contidos nessas trocas e construções identitárias e culturais.
Obviamente, os grandes grupos midiáticos precisam de patrocinadores que assegurem economicamente suas programações, como tais patrocinadores necessitam da mídia para que sua produção seja socialmente visualizada: a relação é de mão dupla. O telespectador é chamado apenas para o terceiro tempo, o do consumo – ou seja, o da pós-produção.
Valores e culturas
A midiatização das diversas culturas facilitada pela Copa do Mundo deve ir além de uma intenção estritamente mercantil ou publicitária. Como afirma Nestor G. Canclini, as relações que movimentam a produção e o consumo mercantil devem ser compreendidas a partir da complexidade das realidades multiculturais. Para Canclini, a prática da cidadania passa também pelo consumo, mas não apenas pelo consumo midiático, ou o que se efetiva no campo do terceiro tempo. Isso nos leva a considerar que este espaço midiático-mercantil não é autossuficiente para o consumo cidadão, visto que a cidadania – nessa perspectiva – é limitada, pois ocorre muitas vezes por vias desiguais de aquisição como de demanda.
Herbert de Souza, o Betinho, pontua que "o termômetro que mede a democracia em uma sociedade é o mesmo que mede a participação dos cidadãos na comunicação". Assim, que seja concedida voz a esse público que também almeja ser cidadão ao expressar seus valores, culturas e identificações, não apenas no terceiro tempo, mas enquanto o jogo é jogado. Quem sabe um dia, a Copa do Mundo midiatizada constitua-se como um espaço onde o cidadão seja mais do que um fanático torcedor.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
José Saramago, Prêmio Nobel, Comunista, e filho de analfabetos

Foto: Sebastião Salgado
Intervir...
"Inventámos uma espécie de pele grossa que nos defende dessa agressão da realidade, que nos levaria a assumi-la, a percebermos o que se está a passar e a fazer o que finalmente se espera de um cidadão, que é a intervenção".
Organização popular...
"O mal é não estarmos organizados, devia haver uma organização em cada prédio, em cada rua, em cada bairro, Um governo, disse a mulher, Uma organização, o corpo também é um sistema organizado, está vivo enquanto se mantém organizado, e a morte não é mais do que o efeito de uma desorganização,… ("Ensaio Sobre a Cegueira")
"Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de refexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, nao vamos a parte nenhuma".
Revista do Expresso, Portugal (entrevista), 11 de Outubro de 2008
"...O importante foi ter vindo,
o importante é o caminho que se fez,
a jornada que se andou"
“Tirou o pequeno aparelho do bolso exterior do casaco e ligou-o (...) o ponteiro de sintonização continuava a extrair ruídos da pequena caixa, depois fixou-se, era uma canção, uma canção sem importância, mas os cegos foram se aproximando devagar, não se empurravam, paravam logo que sentiam uma presença à sua frente e ali se deixavam ficar, a ouvir com os olhos muito abertos na direção da voz que cantava, alguns choravam, como provavelmente só os cegos podem chorar, as lagrimas correndo simplesmente, como de uma fonte" (Ensaio sobre a cegueira)
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